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Xenofonte
CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia Digital, 2012.
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Ao ler Xenofonte hoje, tem-se a forte impressão de ver um velho documentário de guerra, em preto e branco, com contrastes violentos de luz e movimentos acelerados, como nos trechos sobre a marcha sob a neve e o vento Bóreas.
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Os soldados protegiam a vista contra o efeito da neve segurando algo preto diante dos olhos durante a marcha.
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Era necessário mexer os pés sem parar e, à noite, desamarrar as calçadas.
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Essas misérias inevitáveis fizeram com que alguns homens ficassem para trás.
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Ao avistar um local que fazia uma mancha escura por não ter neve, supuseram que ela havia derretido devido a uma fonte próxima que fumegava num vale.
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O que importa em Xenofonte é a sucessão contínua de detalhes visuais e ações, como no trecho em que soldados que se afastaram do acampamento viram muitos fogos brilhar à noite.
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Os estrategos julgaram perigoso acampar separadamente e valia mais reunir novamente o exército.
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Enquanto acampavam naquela noite, caiu uma espessura de neve que cobriu armas e homens estendidos.
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Os animais de carga estavam dormentes pela neve, e os homens não tinham pressa de se levantar, pois a neve que os cobria lhes aquecia.
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Xenofonte teve a coragem de se levantar e, sem manto, começar a rachar lenha.
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Um soldado levantou-se, depois outro, tiraram-lhe o machado das mãos e continuaram a tarefa.
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Todos se levantaram, acenderam fogo e esfregaram o corpo com gorduras encontradas no país (banha, óleo de gergelim, de amêndoas amargas, de terebinto), que serviam como azeite de oliva, e também encontraram essência perfumada extraída dessas mesmas sementes.
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Passa-se rapidamente de uma representação visual a outra, daí à anedota e daí ao levantamento de costumes exóticos, formando o fundo sobre o qual se tece uma sucessão contínua de episódios aventureiros e obstáculos imprevistos à marcha do exército errante.
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Cada obstáculo é normalmente superado graças a um ardil de Xenofonte, que encontra uma solução estratégica para cada cidade fortificada, frente inimiga, vau ou intempérie.
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Xenofonte assemelha-se a personagens infantis de histórias em quadrinhos que sabem se safar de provas impossíveis, sendo frequentemente dois os protagonistas (Xenofonte e Quirísofo, o ateniense e o espartano), com o ardil de Xenofonte sempre sendo o mais astuto, generoso e decisivo.
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A temática da Anábase poderia ter se adequado a um relato picaresco ou heroico-cômico, com dez mil mercenários gregos engajados por Ciro, o Jovem, para destronar seu irmão Artaxerxes II, que após a derrota em Cunaxa se veem sem chefes, longe da pátria, tendo que abrir caminho de volta entre populações inimigas.
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Os dez mil homens, armados, famintos, pilham e destroem como um enxame de gafanhotos por onde passam, arrastando um grande número de mulheres.
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Xenofonte não se deixava tentar pelo estilo heroico da epopeia ou pelos aspectos truculentos e grotescos da situação.
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Seu memorial é técnico, de um oficial, um diário de viagem com distâncias, pontos de referência geográficos, informações sobre recursos animais e vegetais, e relato de problemas diplomáticos, logísticos, estratégicos e suas soluções.
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Ao relato são intercaladas “atas de reunião” do estado-maior e discursos de Xenofonte às tropas ou aos embaixadores dos bárbaros, cada um evocando um problema de política externa (relações diplomáticas com príncipes e chefes dos territórios) ou interna (discussões entre chefes helênicos com rivalidades entre atenienses e espartanos).
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O segredo da leitura da Anábase é nunca saltar nada, seguir tudo ponto por ponto.
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O livro é escrito sob uma forma polêmica contra outros generais, sobre as responsabilidades de cada um na condução da retirada.
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Comparado a T.E. Lawrence, a maestria do inglês reside na suspensão de um halo de encantamento estético e ético em torno dos eventos, enquanto no grego a exatidão e a secura não apresentam nenhum subentendido, sendo as duras virtudes do soldado apenas isso.
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Existe um pathos da Anábase, que é a angústia do retorno, a desorientação em país estrangeiro e o esforço para não se dispersar, pois, enquanto estão juntos, transportam de certa forma sua pátria consigo.
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Essa luta pelo retorno de um exército conduzido à derrota numa guerra que não era a sua, abandonado a si mesmo, com batalhas travadas apenas para abrir uma via de saída entre ex-aliados e ex-inimigos, aproxima a Anábase de livros de memórias sobre a retirada da Rússia dos caçadores alpinos italianos.
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Em 1953, Elio Vittorini, ao apresentar O Sargento na Neve, de Mario Rigoni Stern, usou a definição de “pequena anábase dialetal”.
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Os capítulos da retirada na neve da Anábase são ricos em episódios que poderiam ser tomados como os do Sargento.
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O que caracteriza a obra de Rigoni Stern e outros melhores livros italianos sobre a retirada da Rússia é que o narrador-protagonista é um bom soldado, como Xenofonte, e fala das ações militares com competência e tomando partido.
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Para eles, como para Xenofonte, as virtudes guerreiras, no desmoronamento geral das ambições mais pomposas, tornam-se virtudes práticas e de solidariedade para medir a capacidade de cada um de ser útil a si mesmo e aos outros.
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Citam-se A Guerra dos Pobres, de Nuto Revelli, pela fúria apaixonada do oficial decepcionado, e Os Longos Fuzis, de Cristoforo M. Negri.
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As analogias param aí, pois as memórias dos Alpinos nascem do contraste entre uma Itália humilde e cheia de bom senso e as loucuras e o massacre da guerra total, enquanto nas memórias do general do século V o contraste é entre a situação de enxame de gafanhotos do exército de mercenários helênicos e o exercício das virtudes clássicas, filosóficas, civis e militares que Xenofonte tenta adaptar às circunstâncias.
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Xenofonte parece seguro de ter conseguido conciliar os dois termos, aplicando um código de disciplina e dignidade (um “estilo”) à condição de gafanhoto, sem discutir o fato de sê-lo, mas apenas a melhor maneira de sê-lo.
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Em Xenofonte, a ética moderna de uma perfeita eficácia técnica (ser “à altura da situação” e “fazer bem as coisas que se faz”) está já bem delineada, independentemente da avaliação da ação em termos de moral universal.
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Xenofonte tem o grande mérito moral de não enganar, de nunca idealizar a posição que tomou, sendo-lhe estranha a hipocrisia “colonialista”, pois sabe que está à frente de uma horda de saqueadores em terra estrangeira e que a razão não está do seu lado, mas do lado dos bárbaros invadidos.
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Em suas exortações aos soldados, não deixa de lembrar as razões dos inimigos: “Os inimigos terão tempo para nos saquear, e têm boas razões para nos atacar, dado que ocupamos a propriedade deles…”
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Toda a sua dignidade reside nessa busca por dar um estilo, uma norma ao movimento biológico de homens ávidos e violentos entre as montanhas e planícies da Anatólia: uma dignidade limitada, não trágica, burguesa no fundo.
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A armada dos Helenos que serpenteia entre gargantas de montanhas e vaus, entre emboscadas e pilhagens, sem distinguir quando é vítima e quando se torna opressora, inspira uma angústia simbólica que talvez só os leitores de hoje possam compreender.
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