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Interpretação
CAMPBELL, Joseph. Mythic worlds, modern words: on the art of James Joyce. Edited by Edmund L. Epstein. Novato: Joseph Campbell Foundation: New World Library, 2003
Finnegans Wake como Guia e Sonho Cósmico
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“Finnegans Wake” se abre como um Baedeker (guia de viagem) detalhado para uma paisagem instável e sonolenta: o interior de um ser que sonha.
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Joyce começa o livro parodiando o estilo de um professor-guia fervoroso e erudito, um cicerone solícito em desdobrar todas as lendas inerentes aos detalhes da cena.
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O ser adormecido em cujo interior se perambula jamais adivinharia o quão cósmicas são as conotações dos fragmentos de seu sonho.
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O grupo de turistas, graças à erudição inesgotável do guia tagarela, contempla toda a história e forma do macrocosmo, sua correspondência com a biografia e anatomia do microcosmo.
O guia, como tudo no volume, sofre uma série de metamorfoses; o grupo de turistas se torna uma classe de moleques atentos, o público invisível do rádio, ou um assistente obtuso de um detetive rural.-
Paleontologia, arqueologia, paleografia e jardinagem paisagística estão entre os temas favoritos de discurso do professor.
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Ele manipula o “pudendascópio” da psicanálise em moças “when they were yung and easily freudened” (quando eram jovens e facilmente freudianas), sabendo que “father… is not always that undemonstrative relative” (pai… nem sempre é aquele parente pouco demonstrativo).
Por trás da multifacetada e às vezes irritante mascarada, senta-se o autor, Joyce; de vez em quando ele deixa o fantoche de lado para falar em pessoa, ainda brincando, com o leitor.-
Fica-se confuso para adivinhar onde ele está provocando e onde está sério, até que começa a amanhecer que o modo da burlesca desordenada é precisamente a seriedade mais profunda de Joyce.
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Essa realização chocante revela o segredo de sua arte mitológica fundamentalmente onírica e antitrágica — uma arte ambígua e paradoxal.
O pensamento de Joyce é sempre simples: o dos arquétipos simbólicos da mitologia e da metafísica, familiares à humanidade há milênios.-
A mitologia é a linguagem pictórica tradicional da metafísica, informada pelo repouso, mesmo que seus modos sejam caprichosos, ridículos, grandiosos e horríveis.
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Uma anonimidade prodigiosa de sentimento, indiferente ao vício e à virtude, uma prontidão para permitir que universos sejam gerados e aniquilados nas rodas giratórias do tempo, é o sinal da apocalipse desta revelação trans-humanística.
Os povos da Índia conhecem o mito de Vishnu, cujo sonho é a história do mundo.-
Ele repousa nas águas da eternidade, reclinado sobre Ananta (“Sem Fim”), a Serpente Cósmica. De seu umbigo cresce um grande lótus: a corola dourada é a flor do mundo.
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A humanidade, os deuses e os demônios surgem, amam e batalham, passam pelas vicissitudes da história e, o lótus tendo completado o ciclo de sua estação natural, dissolvem-se novamente.
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O universo como sonho é um tema dominante da metafísica e do mito: as formas do mundo fenomênico são consideradas metamorfoses insubstanciais de uma substância consciente primal.
O estado do Sonhador Cósmico é aproximado no sono — onde a fantasmagoria diante do olho do dorminhoco é uma pequena contrapartida da visão do Criador do mundo.-
Aparentemente, é uma crença universal que, quando as faculdades de atenção se desprendem do compromisso dos órgãos do corpo, elas submergem em uma quietude sobrenatural que une o indivíduo à vida primal.
Este é o sentido do sono do taverneiro Humphrey Chimpden Earwicker (HCE, Sr. Aqui Vem Todo Mundo), o herói de “Finnegans Wake”.-
Embora durante o dia ele esteja envolto no “sono da ignorância”, dentro da profundidade do sonho seu espírito participa da sabedoria do Todo em todos.
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Quando ele acordar, terá esquecido novamente, mas por um tempo — o tempo do sonho — visões são apresentadas a seu olho interior.
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Seguindo o “riverrun” (curso do rio) do pesadelo de HCE, entra-se acordado na zona instrutiva do sono do herói.
O “Livro dos Mortos” de Joyce
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O progresso de Dante teve sua contrapartida antiga na provação da alma-múmia egípcia em Amenti, em sua jornada solitária e perigosa até a sala do trono de Osíris.
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O interminável discurso do guia hermético de Joyce ressoa com ecos obscuros dos capítulos do “Livro dos Mortos” egípcio.
O cicerone transforma-se momentaneamente no papiro seco e quebradiço, e parece que se está lendo a própria “Amenti no sexto capítulo selado da saída pelo preto” (“our Amenti in the sixth sealed chapter of the going forth by black”).-
“Thou hast closed the portals of the habitations of thy children and thou hast set thy guards thereby, even Garda Didymus and Garda Domas” (Fechaste os portais das habitações de teus filhos e estabeleceste teus guardas, até mesmo Garda Dídimo e Garda Domas).
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“O, lord of the barrels, comer forth from Anow (I have not mislaid the key of Efas-Taem), O, Ana, bright lady, comer forth from Thenanow” (Ó, senhor dos barris, sai de Anow (não extraviei a chave de Efas-Taem), ó, Ana, senhora brilhante, sai de Thenanow).
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“I have performed the law in truth for the lord of the law, Taif Alif. I have held out my hand for the holder of my heart in Annapolis” (Executei a lei em verdade para o senhor da lei, Taif Alif. Estendi minha mão para o detentor do meu coração em Annapolis).
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“You are pure. You are pure. You are in your puerity.” (Você é puro. Você é puro. Você está em sua pureza infantil.)
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“Irise, Osirises! Be thy mouth given unto thee!” (Levantem-se, Osírises! Que te seja dada a boca!).
Inferno, Purgatório e Céu Interiores
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Inferno, purgatório e céu estão dentro de cada um: o progresso de Dante pelas esferas externas evidencia o aprofundamento de seu ser interno.
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Sua vinda ao Pai no alto corresponde ao seu conhecimento do Filho dentro; os dois são consubstanciais.
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No Egito, a concepção do problema era aparentemente idêntica: o papiro guiava o viajante até a sala do trono do Deus.
Aquele que fora chamado “Osíris” em seu leito de morte contemplava Osíris e compreendia que ele e a divindade, o conhecedor e o conhecido, a criatura e o criador, o Filho e o Pai, eram consubstanciais (“He is I, and I am he” — Ele sou eu, e eu sou ele).-
Este problema atormentou Joyce desde o início e é um tema dominante em “Finnegans Wake”.
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O autor enfiou todas as pérolas reunidas de seu “monomito” eclético no fio simples e grosseiro de uma cômica canção irlandesa-americana.
O carregador de tijolos Tim Finnegan, muito beberrão, cai do topo de sua escada (“Dimb! He stottered from the latter. Damb! he was dud. Dumb!” — Dimb! Ele cambaleou da escada. Damb! ele estava morto. Mudo!).-
Em seu velório, um jorro de uísque (“Usqueadbahgahm!”) é acidentalmente derramado sobre o cadáver, que revive (“Och, he revives! See how he raises!” — Oh, ele revive! Veja como ele se levanta!).
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“Soul of the divil! Did ye think me dead?” (Alma do diabo! Vocês pensaram que eu estava morto?), seguido por “Lots of fun at Finnegan's wake” (Muita diversão no velório de Finnegan).
A relação desta cena vivaz com o mistério e a saturnália do Deus morto e ressuscitado é óbvia. “Finnegans Wake” ressoa com ecos das divindades moribundas do mundo: Baco, João Ceveda, Osíris.-
Assim como a morte do deus é a vida de sua comunhão, a de Tim Finnegan também o é: “Life… is a wake” (A vida… é um velório).
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Prosternado, “morto”, Finnegan é a paisagem que sustenta o mundo, estendendo-se de Howth Head até os montículos do Phoenix Park.
Finnegan é o passado; o que foi; o vagamente lembrado; o esquecido; sobre o qual o presente é construído e continuamente se alimenta.-
Os megálitos do Neolítico são obra de suas mãos. Ele é do número sagrado daqueles heróis lendários titânicos que dormem dentro das montanhas vivas (Finn MacCool da Irlanda, por exemplo).
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“Words weigh no more to him than raindrips to Rethfernhim. Which we all like. Rain. When we sleep.” (Palavras não pesam mais para ele do que gotas de chuva para Rethfernhim. O que todos nós gostamos. Chuva. Quando dormimos.)
Na versão de Joyce do velório, quando o corpo se mexeu para se levantar, a companhia pressionou o velho para baixo (“Now be aisy, good Mr Finnimore, sir” — Agora sossegue, bom Sr. Finnimore, senhor).-
O presente — o momento rápido do AGORA — já o havia ultrapassado e já se apresentava em outra encarnação: “A big rody ram lad… with a pocked wife in pickle” (Um grande rapaz… com uma esposa varíola em conserva).
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Finnegan é da geração dos avós; toda a ordem do presente foi fundada na suposição de sua morte. “Move up[,] Mumpty! Mike room for Rumpty!” (Mexa-se, Mumpty! Abra espaço para Rumpty!).
Ontem, Hoje e Amanhã
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“Eu sou Ontem, Hoje e Amanhã”, percebe a alma-múmia quando despertada na sala do trono de Osíris. O véu do tempo, assim como o do espaço, se dissolve.
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O significado da imagem mitológica da Queda: o Um tornou-se disperso e ocluído pelos contrários de Sua manifestação cósmica (aqui e ali, então e agora, causa e efeito, meio e fim, bem e mal).
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O que na eternidade É, agora pode ser conhecido apenas sucessivamente, como um processo: passado, presente e futuro.
Finnegan é passado, Earwicker é presente; os filhos de Earwicker são o futuro: os diferentes corpos nascem e morrem.-
No entanto, quando se perscruta com o olho do sono clarividente (o “sween” de Chaucer) o indivíduo efêmero, o momento vivo, AGORA, é percebido como tudo o que sempre foi (“O my shining stars and body!” — Ó minhas estrelas brilhantes e corpo!).
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Sob a condução do guia onisciente, redescobre-se “that One Man who sings in all of us” (aquele Homem Único que canta em todos nós).
Através do âmago do adormecido Earwicker (esse fio de vida no qual os milênios foram enfiados como contas), pode-se perscrutar através das eras: todas estão instantâneas em um momento luminoso.-
E se contempla em um único “alguém estável” (“stable somebody”) aqueles heróis do passado que outrora foram o presente que o homem moderno agora é.
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É assim e por que HCE é e não é o mesmo que Finnegan. Como taverneiro de Chapelizod (Humphrey Chimpden Earwicker), ele não é o construtor titânico do passado, mas como a Mônada (Here Comes Everybody; Haveth Childers Everywhere), ele é o que Finnegan foi.
Ao perscrutar as imagens de “Finnegans Wake”, não se sondam meramente as fantasias do sonho de Earwicker, mas os poderes, as presenças, dentro dos genes de suas células.-
Pode-se aprofundar através delas o abismo da história do homem, de volta ao momento em que Adão deixou o dedo de Deus. HCE é aquele primeiro mortal.
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Ele é também o sobrevivente do Dilúvio, o herói da cultura, o fundador da cidade, o patriarca, o rei, o saqueador, o conquistado, o vagabundo, o voluptuário e o santo.
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Através do prisma do tempo e do espaço, HCE apareceu, aparece e continuará a reaparecer como se fosse de muitas formas.
O Substrato sem Sonho
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Mas abaixo e sustentando esta auto-multiplicação fluente no sonho, repousa a ausência de sonho de Finnegan, cuja ressurreição foi predita na canção cômica.
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Ele é a morte, o passado, o sono sem sonhos: o substrato escuro e misterioso do sonho da vida. Sua múmia é tudo o que se pode ver.
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Na sala do trono de Osíris, ele é consubstancial com Deus; e quando isso é descoberto (o ponto profundo dentro dele onde os contrários da morte e da vida, passado e futuro, se encontram), então Amanhã, Hoje e Ontem serão um novamente.
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“The whole thugogmagog… to be wound up for an afterenactment by a Magnificent Transformation Scene showing the Radium Wedding of Neid and Moorning and the Dawn of Peace, Pure, Perfect and Perpetual, Waking the Weary of the World.” (Todo o tuginimagog… para ser concluído para uma reencenação por uma Cena de Transformação Magnífica mostrando o Casamento de Rádio de Neid e Manhã e o Amanhecer da Paz, Pura, Perfeita e Perpétua, Despertando os Cansados do Mundo.)
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Finnegan despertará e o velório terminará, mas enquanto isso, “Life… is a wake” (A vida… é um velório).
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