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Ulisses

CAMPBELL, Joseph. Mythic worlds, modern words: on the art of James Joyce. Edited by Edmund L. Epstein. Novato: Joseph Campbell Foundation: New World Library, 2003

Introdução a Ulisses: A Terra Devastada

A ação de “Ulisses” se passa em Dublin, em 16 de junho de 1904, para onde Stephen Dedalus retorna após receber um telegrama anunciando a morte iminente da mãe, e a cidade é apresentada como uma terra devastada, estéril e sem vida, habitada por almas mortas presas a seus pecados e limitações.

  • A obra se passa no plano da consciência desperta, onde Stephen e Bloom vagam vestindo luto, como se estivessem através de um inferno, pois no inferno as almas estão para sempre ligadas a seus pecados e limitações.
  • Em contraste com o purgatório de “Finnegans Wake”, onde os moldes protetores se quebram e há processo, mudança e movimento para purgar os orgulhos na ignorância, “Ulisses” retrata um mundo sem fermentação, salvo nas mentes dos dois heróis contrapostos.
  • A terra devastada de Dublin é caracterizada pela esterilidade: o gado morre de peste, as mulheres não podem dar à luz, o governo é de estrangeiros (a coroa inglesa e os padres romanos) e os cidadãos são tagarelas complacentes, fechados em si mesmos.
  • T. S. Eliot, que leu “Ulisses” antes de escrever “The Waste Land”, usa os mesmos temas, incluindo o homem afogado e a voz do trovão, sendo que o trovão no centro exato de “Ulisses” marca a transição de Stephen de um orgulho espiritual fixo e estéril para um processo purgatorial.
  • A palavra sânscrita para “raio” (vajra) também significa “diamante” e conota a iluminação transcendente, que estilhaça as formas fenomênicas assim como o relâmpago, e o trovão na obra de Eliot (“What the Thunder Said”) também fala a palavra “Da”, que está por trás de “damyata” (controle-se), “datta” (dê) e “dayadhvam” (seja compassivo).

Ulisses e a Odisseia

A estrutura de “Ulisses” segue o modelo da “Odisseia” de Homero, dividindo-se em três seções que correspondem aproximadamente às aventuras de Telêmaco (primeira seção), às de Odisseu (segunda seção) e ao encontro de ambos (terceira seção).

  • A primeira seção (três capítulos) lida inteiramente com Stephen Dedalus no papel de Telêmaco, que não encontrou seu pai espiritual (Simon Dedalus é o pai biológico) e é chamado a encontrá-lo, buscando um modelo ou guru para sua vida.
  • A segunda seção (doze capítulos) desloca o centro de gravidade de Stephen para Leopold Bloom, um homem maduro e intelectual que sabe assimilar o conhecimento à vida vivida, e que será o pai espiritual de Stephen.
  • No final da segunda seção, Stephen e Bloom se encontram em uma maternidade (local de renascimento), onde ouvem o trovão, e Stephen começa a se libertar de seu ego antigo para renascer como um novo personagem.
  • A terceira seção (três capítulos) mostra Bloom e Stephen juntos no bordel de Dublin (a Cirene das iniciações de morte), onde Stephen, embriagado, é salvo por Bloom após ser derrubado por soldados britânicos.
  • Na cena final, Bloom leva Stephen para sua casa para tomar cacau, depois sobe para a cama com Molly, cujo solilóquio no último capítulo (“Penélope”) é o grande atrativo do livro.

A Odisseia da Iniciação

A “Odisseia” narra o amadurecimento de Odisseu e sua iniciação nos mistérios da masculinidade, onde ele precisa se despojar do modo guerreiro (que trata a mulher como butim) e aprender o diálogo com o princípio feminino em suas três grandes manifestações arquetípicas.

  • As três grandes deusas gregas que disputam a maçã de ouro representam os três aspectos do feminino que aparecem em “Ulisses” para iniciar os personagens masculinos: Hera (a esposa e mãe, representada por Molly Bloom), Afrodite (a tentadora e pecadora, representada pelas prostitutas) e Atena (a virgem filha do pai, representada por Milly Bloom, filha de Leopold).
  • Após a Guerra de Troia, a jornada de retorno de Odisseu começa com ele ainda no modo guerreiro (saqueando e estuprando), mas os deuses o punem e ele entra em uma “jornada noturna pelo mar”, um território de sonho onde não encontra mais seres humanos, mas ninfas e monstros.
  • O primeiro monstro é o gigante Polifemo (filho de Poseidon, senhor das águas abissais), guardião do limiar que tem um olho no meio da testa; quando Odisseu fura seu olho e escapa da caverna amarrado sob o grande carneiro (símbolo do poder solar), ele se identifica como “Ninguém” e estabelece sua consubstancialidade com o sol.
  • Após a inflação espiritual na ilha de Éolo (que lhe dá um odre com todos os ventos contrários, exceto o que o levaria para casa) e a deflação pelos homens que abrem o odre, Odisseu perde onze navios na ilha dos Laestrigônios (cannibais), restando apenas um navio, o que configura um desmembramento.
  • A grande iniciação ocorre na ilha de Circe, a mulher que transforma homens em porcos; com a ajuda de Hermes e da planta moly (um amuleto, como a batata que Bloom carrega contra reumatismo), Odisseu a subjuga e recebe dela duas iniciações: a descida ao Hades (encontro com as forças biológicas ancestrais) e a viagem à Ilha do Sol (a iluminação da consciência).
  • No Hades, Odisseu encontra Tirésias, a figura andrógina que foi homem e mulher por ter colocado seu cajado entre duas serpentes copulando; cego por Hera (por ter decidido que as mulheres têm mais prazer no sexo), ele recebe de Zeus o dom da visão profética, representando o acesso às forças morfológicas que moldam a vida.
  • Após a iniciação solar (onde seus homens matam o gado sagrado do Sol e são destruídos por Zeus), Odisseu passa sete anos na ilha de Calipso (outra ninfa), e depois vai à ilha dos Feácios, onde conta sua história à princesa Nausícaa e seus pais, sendo então transportado de volta à sua terra natal.
  • O reencontro com o filho Telêmaco se dá no curral do porqueiro (o porco é o animal do sacrifício às forças abissais), e assim como Circe transformava homens em porcos, é no bordel (cujo local tem uma “mulher porca”) que ocorre o encontro entre pai e filho em “Ulisses”, onde Bloom se transforma numa pequena porca fêmea.
  • A lição final da iniciação de Odisseu é que, ao ser compelida a transformar os homens de volta em sua forma original, Circe os devolve mais jovens, mais belos e mais fortes, e o herói, então aberto à compaixão (não à paixão) pelo princípio feminino, está pronto para encontrar a esposa Penélope de maneira adequada.
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