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Fadas
John Patrick Pazdziora, in MACLACHLAN, Christopher. Rethinking George MacDonald: Contexts and Contemporaries. Glasgow: Association for Scottish Literary Studies, 2013.
CONTOS DE FADAS: THACKERAY, LANG E MACDONALD EM COMPARAÇÃO
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Andrew Lang, um dos críticos mais influentes do século XIX, considerava MacDonald um romancista e um poeta de alto escalão, demonstrando grande estima por ele, embora sua resenha de “Thomas Wingfold, Curate” não fosse inteiramente favorável.
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Lang sentiu “dor e hesitação” ao condenar o romance com elogios fracos, tamanha era sua admiração por MacDonald.
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Apesar de ambos serem homens de letras escoceses e profundamente ligados à tradição folclórica escocesa, não há, até onde se sabe, nenhuma crítica comparando os dois.
Lang considerava “The Rose and the Ring”, de Thackeray, o exemplo exemplar do conto de fadas literário, embora a obra seja uma sátira espalhafatosa com um estilo imitativo e rebuscado.-
O livro de Thackeray é uma “comédia de costumes” de fina camada, repleta de contradições internas e anacronismos, sem nunca se levar a sério.
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Lang observa corretamente que Thackeray parodia o conto de fadas com zombaria amável.
Embora MacDonald e Lang tenham seguido Thackeray ao parodiar o “conte” (conto de fadas literário francês) em obras como “The Light Princess” e “Prince Prigio”, eles escreveram dentro de uma estrutura teórica maior sobre a importância e a necessidade dos contos de fadas.-
Ambos compartilham um propósito comum que os separa de Thackeray, demonstrando profunda empatia com a forma do conto de fadas.
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No entanto, suas respectivas utilizações do conto de fadas se manifestam de maneira diferente, com “Prince Prigio” e “The Light Princess” tanto emulando quanto reagindo contra Thackeray.
“COMO AS FADAS NÃO FORAM CONVIDADAS PARA A CORTE”: O MOTIVO DA AUSÊNCIA
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Jack Zipes argumentou que “The Light Princess” reflete a atitude desrespeitosa de MacDonald em relação aos contos de fadas tradicionais, mas parece mais preciso dizer que ele os re-apropriou para seus próprios fins, vendo-se em uma tradição de contação de histórias viva e contínua.
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A profunda compreensão de MacDonald do folclore permitiu-lhe manipular os materiais tradicionais livremente, o que, segundo Zipes, fomentou seu radicalismo e inovação.
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Tanto “The Light Princess” quanto “Prince Prigio” começam com o mesmo motivo estrutural: a ausência de uma fada ou ser mágico em um batismo real.
Em Thackeray, a omissão da Fada Blackstick é deliberada e hostil, com os pais reais agindo pragmaticamente para evitar sua presença indesejada.-
Blackstick passou a dar o dom do “infortúnio” em vez de presentes mágicos tradicionais, e os convidados reclamam quando o conto foge da fórmula esperada.
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Os personagens, e talvez o leitor, preferem uma presença fada romântica e rosada a lições estoicas sobre a vida.
Em Lang, a negligência do convite é inteiramente culpa da Rainha de Pantouflia, que não acredita em fadas, considerando-as inexistentes, embora viva em um reino onde a história da família real é repleta de capítulos sobre elas.-
A rainha continua a negar a existência das fadas mesmo quando cem delas aparecem em seu baile de batismo.
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Uma fada “velha e rabugenta” amaldiçoa o príncipe Prigio a ser “inteligente demais”, e a maldição e a erudição de sua mãe são a mesma coisa: eles são inteligentes demais para acreditar em fadas.
Em “The Light Princess”, a falha é do rei, que é desastrado e esquecido, falhando não apenas em gerar um herdeiro, mas também com sua própria família e os pobres do reino.-
O rei esquece de convidar sua própria irmã, a princesa Makemnoit, para o batismo, e ela, uma bruxa excepcionalmente perversa, amaldiçoa a criança com a perda da gravidade.
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MacDonald se recusa a abordar a questão didática ou moralisticamente sobre como uma bruxa poderia agir em uma capela, apenas insinuando e deixando o resto do conto lidar com o enigma.
METAMORFOSES E INVISIBILIDADE COMO PUNIÇÃO E EDUCAÇÃO
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Nos três contos, o ímpeto para a crise é a negligência das fadas e uma rejeição de seus dons, resultando em metamorfose corporal e estranhamento do destinatário da sociedade humana normal.
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Em Thackeray, é o porteiro Gruffanuff quem incorre na vingança de Blackstick por sua grosseria, sendo transformado em uma aldrava de metal, mantendo consciência e sensação física enquanto é humilhado e esquecido.
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A punição de Gruffanuff é polivalente e de crueldade inventiva, comparável às execuções mais grotescas dos Irmãos Grimm, forçando-o a testemunhar sua própria aniquilação.
Em Lang, Prigio passa por uma experiência semelhante: estar presente, mas ausente, invisível e, portanto, inexistente.-
Usando o gorro da escuridão sem saber, Prigio é ignorado pelas pessoas, que esbarram nele como se não o vissem, e ele não percebe que é o herói de um conto de fadas.
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O brilhante intelectualismo de Prigio não permite a existência de dons mágicos, forçando-o a concluir que o que está acontecendo não pode estar acontecendo.
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A auto-consciência proporcionada por seu encontro não intencional com fenômenos de contos de fadas permite que ele assuma seu papel como herói e príncipe.
Em MacDonald, a transformação corporal da princesa ocorre no início do conto, com ênfase na inocência da vítima, e toda a narrativa depende dessa metamorfose.-
A perda da gravidade torna a princesa “outra”, estranhada de seus pais e das emoções normais, ausente apesar de sua presença.
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A reação do rei, incluindo a tentativa de açoitar a princesa, ecoa os meios historicamente atestados de banir um changeling (criança trocada pelas fadas), sugerindo que ele pode acreditar que sua filha verdadeira foi levada.
“ESPÍRITO MAIS PROFUNDO”: LANG, MACDONALD E O PROPÓSITO DOS CONTOS DE FADAS
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Tolkien notou a “qualidade estranha e mítica de conto de fadas” em “Prince Prigio”, contrastando a alegoria mítica com o “sorriso de meia-zombaria” superficial.
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Abaixo da superfície frívola do “conte” satírico jaz o “espírito mais profundo” do Lang romântico, que aparece no clímax do conto, quando Prigio aprende a acreditar em fadas e magia.
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Acreditar em fadas e dons de fadas, argumenta Lang, é essencial para que Prigio desperte romanticamente para o amor e se torne o herói.
Lang argumenta que a magia dos contos de fadas está em sua expressão dos elementos não racionais da vida humana, sugerindo que há uma espécie de magia no mundo que torna os contos de fadas necessários.-
Em sua introdução a “The Red Fairy Book”, Lang afirma que os contos de fadas despertam o amor pela leitura e abrem a porta para um país das fadas “não da ciência, mas da fantasia”.
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Lang sugere que os contos de fadas sobreviverão quando a ciência e as filosofias tiverem ruído e desaparecido.
MacDonald, em “The Fantastic Imagination”, afirma que o objetivo do escritor não é a convicção lógica, mas mover por sugestão, causar imaginação, assaltando a alma do leitor como o vento assalta uma harpa eólica.-
As imagens e padrões do conto afetam a imaginação musicalmente, não por explicação.
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A forma de “The Light Princess” é em si uma oclusão, com uma história mais sombria e primitiva sob o véu da frivolidade thackerayiana.
O clímax de “The Light Princess” combina imagens eróticas e eucarísticas, com a princesa e o lago misticamente unidos, e a princesa encontrando sua identidade não na sociedade humana, mas em um relacionamento elementar com o lago.-
A princesa, não o príncipe, é a verdadeira heroína do conto de fadas, sendo sua a história.
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É a princesa quem dispensa a eucaristia, preenchendo o papel sacerdotal, e quem empreende a busca, sacrificando-se para libertar as águas e recuperar sua identidade e equilíbrio.
MacDonald alcançou algo muito diferente de Thackeray e Lang. Thackeray via o conto de fadas literário como uma piada elaborada, e Lang como uma herança cultural romântica a ser preservada.-
Para MacDonald, o conto de fadas literário era uma forma de arte espiritual que poderia iniciar seus leitores mais profundamente no mistério.
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“The Light Princess” utiliza a tradição popular do folclore para produzir uma obra que parece uma bagatela frívola, mas que na verdade é profunda e comovente.
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