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Lilith
David Melville Wingrove, in MACLACHLAN, Christopher. Rethinking George MacDonald: Contexts and Contemporaries. Glasgow: Association for Scottish Literary Studies, 2013.
LILITH E A TRADIÇÃO DO VAMPIRO ROMÂNTICO
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Publicado em 1895, “Lilith” é o culminar da carreira de George MacDonald como escritor de fantasia e talvez o romance fantástico mais inventivamente deslumbrante da década de 1890, apresentando a personificação suprema da femme fatale romântica e vampira.
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O romance conta a história da jornada de um jovem através de um espelho para um mundo paralelo, governado por uma princesa vampira eternamente sedutora, mas maligna.
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Lilith tem sido persistentemente ignorada e omitida pelos “guardiões” do cânone da ficção gótica, talvez por ser estranha demais até mesmo para aqueles que se deliciam com a noção de “estranheza” de uma forma prescrita e previsível.
LILITH: REBELDE, SEDUTORA E VAMPIRO NA MITOLOGIA E NA ARTE VITORIANA
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O nome e o caráter de Lilith derivam da formação de MacDonald como clérigo e estudioso bíblico, sendo no Talmude a primeira esposa de Adão que se recusou a ser subserviente ao marido.
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Rejeitada por sua insubordinação, Lilith reentrou na mitologia do Oriente Médio como um demônio bebedor de sangue que ameaçava todas as mães e seus filhos.
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O profeta Elias encontra Lilith, que afirma estar indo para uma mulher que deu à luz uma criança para dar-lhe o sono da morte, beber o sangue da criança e sugar a medula de seus ossos.
Lilith também pensava em “drenar” a energia de homens jovens através de fantasias sexuais e emissões noturnas, trabalhando no escuro e adicionando mistério aos seus crimes.-
A Lilith talmúdica era claramente uma “dama da noite” no sentido mais verdadeiro, controlando o mundo noturno proibido da sexualidade e dos sonhos, sendo a personificação mítica da mulher como tabu.
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Artisticamente, Lilith estava no auge de sua popularidade na literatura e pintura da era vitoriana tardia, aparecendo em obras como “The Other Side” de Count Stanislaus Eric Stenbock.
Camille Paglia identifica Lilith explicitamente com o vampiro romântico do século XIX, sendo a mulher de Rossetti uma rebelde contra a convenção vitoriana.-
A boca inchada de Rossetti se torna um motivo universal da arte Decadente, uma boca vampira que não pode falar, mas tem vida própria, estando repleta do sangue das vítimas.
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Décadas antes de MacDonald trazê-la à vida em seu romance, Lilith já estava bem estabelecida como um ícone literário e visual da Era Vitoriana.
A OPOSIÇÃO DE LILITH AO CRISTIANISMO E O PARALELO COM CRISTO
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A Lilith do romance de MacDonald se define, em primeiro lugar, por sua oposição ao Deus cristão e sua recusa em se submeter à autoridade divina, proclamando que ninguém a fez e desafiando esse poder a desfazê-la.
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Autores da tradição do vampiro romântico fizeram essa conexão com o paganismo não arrependido, como Goethe em “A Noiva de Corinto”, onde a vampira é uma jovem que morreu após ser forçada a entrar em um convento.
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Em “La morte amoureuse”, de Théophile Gautier, a vampira Clarimonde não é simplesmente a inimiga de Cristo, mas um alter ego feminizado e sexualizado do próprio Cristo, oferecendo vida eterna através dos sentidos.
Apesar de ser um autor declaradamente cristão, MacDonald também dá à sua vampira feminina as qualidades físicas de Cristo ressuscitado, com Lilith sendo retratada como tendo uma mão ferida ou alguma deformidade.-
Cabe a Adão, seu antigo marido, cortar a mão e enviá-la, finalmente, para o sono santificado da morte, com mutilações desse tipo sendo prática padrão ao lidar com a mulher vampira.
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Em um paralelo adicional entre a vampira morta-viva e Cristo ressuscitado, MacDonald retrata Lilith sofrendo uma lesão fatal em seu lado.
Deformidades semelhantes aparecem em vampiras antes e durante o século XIX, como em “Christabel”, de Coleridge, e em “Les Métamorphoses du Vampire”, de Baudelaire.-
Em “Christabel”, o texto sugere a natureza mortal de Geraldine ao descrever seu seio e metade do lado como uma visão para sonhar, não para contar.
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Em Baudelaire, a sede de sangue da vampira é identificada em uma única estrofe com a podridão e degeneração de seu próprio corpo.
A CONEXÃO DE LILITH COM A LUA E A VAMPIRO FEMININA
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MacDonald enfatiza ao longo do livro a conexão de Lilith com o luar e a imagética lunar, relacionando-a a divindades femininas pré-cristãs e baseando-se em uma justaposição simbólica que remonta aos tempos pagãos.
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Em Phantastes, MacDonald já insinua aspectos mais sombrios da lua, com Anodos vislumbrando uma figura vaga e sombria que o lembrava do que ouvira sobre vampiros.
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Lilith se destaca na obra de MacDonald por sua exploração do lado obscuro da lua, com Mr. Vane tendo seu primeiro vislumbre de Lilith vagando no deserto ao luar.
Mais adiante no livro, é a lua que revela Lilith inequivocamente como uma vampira, com um ataque ocorrendo em uma espetacular tableau lunar.-
O rosto da lua e o rosto de Lilith são revelados ao mesmo tempo; conhecer um parece ser conhecer o outro.
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O herói, meio apaixonado por Lilith, salva-se apenas golpeando sua mão ferida e então confronta a verdadeira natureza da tentadora que amou.
Essa correlação entre a lua e a vampira (especialmente a feminina) parece percorrer as eras Romântica e Vitoriana.-
Em “Wake Not the Dead”, de Tieck, a vampira Brunhilda usa apenas joias de prata e pérolas, marcando talvez a primeira instância literária da moda gótica.
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Em “Carmilla”, de Le Fanu, a vampira entra na vida da infeliz Laura em uma noite de luar deslumbrante, sendo descrita como bela sob a luz da lua.
Em “Dracula”, de Bram Stoker, as mulheres vampiras parecem, mais uma vez, nascer do luar, tornando-se gradualmente materializadas a partir dos raios de lua.-
Essa passagem apresenta a vampira feminina inequivocamente como uma criatura formada de luar, parte da própria substância da lua.
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A proliferação dessa imagética branca lunar se estende além da narrativa supernatural do vampiro para um estudo “realista” do vampirismo psicológico, como em “The Glass of Blood”, de Jean Lorrain.
A SUBVERSÃO DO PAPEL MATERNO COMO HORROR CENTRAL
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A identidade primal de Lilith é como a primeira esposa má de Adão, mostrando, junto com seu domínio sexual, uma falta de vontade de cumprir seu papel designado divinamente como mãe.
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Em várias versões da história, ela se recusa a ter filhos, ataca os recém-nascidos de outras mulheres ou caça e aniquila seu próprio filho.
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A existência de Lilith representa um desafio radical ao papel socialmente sancionado da mulher.
O sangue de crianças também é a dieta preferida da Lilith de MacDonald, que se transforma em uma pantera branca para beber o sangue de recém-nascidos.-
Isso é o que leva as mães a abandonarem seus bebês em uma floresta, onde eles crescem para se tornar o exército dos Pequeninos, liderados pela própria filha rejeitada de Lilith, Lona.
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Essa subversão do papel maternal encontra seu caminho, simbolicamente, até mesmo em “Dracula”, com Lucy se tornando uma “senhora bloofer” que atrai crianças desavisadas e bebe seu sangue.
Em toda a ficção de vampiro do século XIX, uma mulher má do passado surge para ameaçar e destruir a mulher virtuosa do presente.-
A Noiva pagã de Corinto seduz o herói e suplanta sua irmã cristã, e o fantasma da primeira esposa em “Ligeia”, de Poe, assassina sua sucessora.
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Outras mulheres vampiras, notavelmente Geraldine, Carmilla e La Barnarina, realizam uma sedução lésbica de uma jovem cuja mãe morreu, sendo a vampira uma mãe “sombria” que suplanta a boa mãe.
Diante da perspectiva de uma “falsa mãe” atacando sua filha, a mãe verdadeira pode até retornar do túmulo para defendê-la, como em “Christabel”.-
Invariavelmente, nessas narrativas, a mulher virtuosa do passado é substituída por um alter ego mais forte e sinistro, que então ameaça corromper a jovem virtuosa do presente.
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Em “Olalla”, de Stevenson, a heroína é assombrada pelo retrato de um ancestral malvado e bebedor de sangue, sendo debatível ao longo da história qual das duas mulheres o herói de fato deseja.
No romance de MacDonald, Lilith não apenas tenta suplantar sua filha, Lona, nas afeições de Mr. Vane, mas também assassina sua filha em frente aos outros personagens.-
Em um gesto que espelha o de Lucy dois anos depois, Lilith substitui o cuidado maternal e a nutrição por assassinato a sangue frio, residindo aqui o coração de Lilith e seu mito.
O DESTINO REDENTOR DE LILITH: AMOR AO INVÉS DE PUNIÇÃO
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A maior estranheza do romance de MacDonald reside no destino que é dado a Lilith no clímax do livro, que está diretamente em desacordo com a tendência geral da ficção de vampiro.
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No alvorecer da era romântica, a vampira feminina podia escapar sem punição alguma, como a Noiva de Corinto, que dita triunfantemente os termos de seu próprio funeral.
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Gautier permite que Clarimonde se dissolva com apenas uma pitada de água benta, deixando o leitor a se perguntar se sua aniquilação foi realmente uma ideia tão brilhante.
Quando a Era Vitoriana estava em seu auge, apenas um assassinato ritual completo servia para expurgar a vampira feminina do texto, carregado por forças de autoridade masculina.-
Em “Carmilla”, o corpo da vampira é levantado, uma estaca afiada é cravada através de seu coração e sua cabeça é cortada, uma cena análoga à desfloração de uma jovem esposa em sua noite de núpcias.
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A cena final do empalamento e decapitação de Lucy em “Dracula” é infinitamente mais sádica e depravada do que qualquer coisa que a própria Lucy realmente fez, com conotações inequívocas de estupro coletivo.
Seguindo sua captura pelos Pequeninos e seu assassinato brutal de sua filha, Lilith também é feita para ficar deitada de costas e sofrer uma forma de penetração, não por uma estaca morta, mas por uma serpente viva.-
Embora a cena pareça ter conotações punitivas e eróticas semelhantes às de Stoker, seu propósito, no contexto mais amplo da obra de MacDonald, é esmagadoramente redentor e espiritual.
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O objetivo dessa penetração não é punição ou aniquilação, mas autoconhecimento, pois o fogo central do universo está irradiando para ela o conhecimento do bem e do mal.
Essa referência ao fogo conecta a cena diretamente ao sermão de MacDonald, “O Fogo Consumidor”, que insiste que qualquer sofrimento que Deus inflige não é uma punição pelo pecado, mas um meio de livramento dele.-
É através do sofrimento que o homem (ou, neste caso, a mulher) pode alcançar a verdadeira unidade com Deus.
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Adão, seu antigo marido, corta a mão ferida que a atormenta, com “um pequeno jorro de sangue”, um substituto benigno para as decapitações selvagens de Le Fanu e Stoker.
Inconcebível em qualquer outro texto de vampiro de sua época, o desfecho de “Lilith” aponta o gênero em uma direção inteiramente nova.-
O objetivo não é ser seduzido pelo mal ou caçá-lo e erradicá-lo, mas sim entender o mal e redimi-lo, devolvê-lo a Deus e ao Seu abraço todo-amoroso.
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Ao contrário da história de vampiro em sua forma clássica, “Lilith” não é um conto de horror, mas um conto de esperança, um triunfo do amor sobre o ódio.
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