====== LER OS CLÁSSICOS ====== //[[.:start|CALVINO, Italo]]. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia Digital, 2012.// * Os clássicos são definidos como livros sobre os quais se ouve dizer "estou relendo" e nunca "estou lendo", ao menos entre aqueles a quem se supõe vastas leituras. * A regra não se aplica à juventude, pois para os jovens a relação com o mundo, e com os clássicos como parte dele, tem precisamente a forma de um primeiro encontro. * O prefixo iterativo diante do verbo "ler" pode indicar uma pequena hipocrisia daqueles que teriam vergonha de admitir que não leram um livro famoso. * Para tranquilizar esses, basta observar que, por mais vastas que possam ser as "leituras de formação" de um indivíduo, sempre resta um número imenso de obras fundamentais que não foram lidas. * Questiona-se quem leu por completo Heródoto, Tucídides, Saint-Simon e o cardeal de Retz. * Mesmo os grandes ciclos romanescos do século XIX são mais nomeados do que lidos. * Na França, acredita-se que se continue lendo Balzac depois da escola, mas na Itália um suposto sondagem o colocaria nos últimos lugares. * Os entusiastas de Dickens na Itália representam um grupo restrito que evoca episódios e personagens como se fossem conhecidos. * Michel Butor, cansado de ser interrogado sobre Émile Zola sem o ter lido, decidiu ler todo o ciclo dos Rougon-Macquart e descobriu algo bem diferente do que imaginava, uma fabulosa genealogia mitológica e cosmogônica descrita em um belo ensaio. * Ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário, diferente, mas não superior ou inferior, ao prazer que se teria ao lê-lo na juventude. * A juventude confere à leitura, como a qualquer outra experiência, um sabor e uma importância particulares. * Na idade madura, aprecia-se (ou deveria apreciar) muito mais detalhes, percebem-se níveis e distinguem-se sentidos. * A partir disso, tenta-se outra definição. * Os clássicos constituem uma riqueza tanto para quem os leu e amou quanto para quem reserva o prazer de lê-los pela primeira vez nas condições mais favoráveis para apreciá-los. * Leituras de juventude podem ser pouco proveitosas devido à impaciência, distração, inexperiência dos modos de uso e inexperiência da vida. * Elas podem, eventualmente ao mesmo tempo, ser formadoras na medida em que dão forma às experiências futuras, fornecendo modelos, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valor e paradigmas de beleza. * Essas coisas continuam a operar mesmo quando resta pouco ou nada do livro lido na juventude. * Ao reler esse livro na idade madura, acontece de reencontrar essas constantes cuja origem se havia esquecido e que agora fazem parte dos mecanismos interiores. * A obra literária possui essa força específica: fazer-se esquecer como obra, deixando sua semente. * Os clássicos são livros que exercem uma influência particular tanto ao se imporem como inesquecíveis quanto ao se dissimularem nos recônditos da memória por assimilação ao inconsciente coletivo ou individual. * Por isso, deveria se dedicar, na idade adulta, um tempo à redescoberta das leituras mais importantes da juventude. * Se os livros não mudam (mas na realidade mudam à luz de uma perspectiva histórica diferente), o leitor mudou, e os reencontros com eles são eventos novos. * O uso do verbo "ler" ou "relrer" não tem mais importância alguma. * Toda releitura de um clássico é uma descoberta, como a primeira leitura. * Toda primeira leitura de um clássico é, na realidade, uma releitura. * Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer o que tem a dizer. * A definição de que toda releitura é uma descoberta pode ser considerada um corolário desta. * Os clássicos são livros que, quando nos chegam, trazem em si o traço das leituras que precederam a nossa e arrastam atrás de si o traço que deixaram na(s) cultura(s) que atravessaram (ou, mais simplesmente, na linguagem e nos costumes). * Essa definição vale tanto para os clássicos antigos quanto para os modernos. * Ao ler a Odisseia, lê-se o texto de Homero, mas não se pode esquecer tudo o que as aventuras de Ulisses passaram a significar ao longo dos séculos, nem deixar de perguntar se esses sentidos eram implícitos no texto ou se são depósitos, deformações ou extensões sucessivos. * Ao ler Kafka, não se pode fazer outra coisa senão verificar ou rejeitar a legitimidade do adjetivo "kafkiano", ouvido a todo instante empregado de modo equivocado. * Ao ler Pais e Filhos de Turguêniev ou Os Demônios de Dostoiévski, não se pode deixar de lembrar como esses personagens continuaram a se reencarnar até os dias de hoje. * A leitura de um clássico deve sempre reservar alguma surpresa em relação à imagem que se tinha dele, razão pela qual se recomenda ler diretamente os textos originais, afastando ao máximo as bibliografias críticas, comentários e interpretações. * A Escola e a Universidade deveriam servir para fazer entender que nenhum livro que fale sobre um livro diz mais do que o livro em questão. * No entanto, a Escola e a Universidade fazem tudo para fazer crer o contrário, invertendo os valores de modo que a introdução, o aparato crítico e a bibliografia são usados como uma cortina de fumaça. * Essa cortina de fumaça dissimula o que o texto tem a dizer, que só pode dizer se for deixado falar sem um intermediário que pretenda saber mais do que ele. * Um clássico é uma obra que provoca sem cessar uma nuvem de discursos críticos, dos quais se livra continuamente. * O clássico não ensina necessariamente algo de novo. * Às vezes, descobre-se nele algo que sempre se soube (ou se acreditou saber), sem saber que tinha sido aquele livro a dizê-lo primeiro (ou que a isso se ligava de modo particular). * Essa surpresa é também uma surpresa plena de satisfação, como o é sempre a descoberta de uma origem, de uma relação, de uma pertença. * Os clássicos são livros que a leitura torna tanto mais novos, inesperados e inauditos quanto mais se acreditou conhecê-los por ouvir dizer. * Isso só ocorre quando o clássico funciona como tal, ou seja, estabelece uma relação pessoal com quem o lê, pois não se lê os clássicos por dever ou respeito, mas apenas por amor, ao menos fora da escola. * Se a centelha não saltar, nada a fazer. * A escola tem o papel de fazer conhecer, de algum modo, um certo número de clássicos, entre os quais (ou em relação aos quais) cada um poderá reconhecer seus próprios clássicos. * A escola é obrigada a dar instrumentos para operar uma escolha, mas as escolhas que contam são aquelas feitas depois e fora dela. * É apenas ao sabor de leituras desinteressadas que se pode um dia encontrar o livro que se tornará o livro do leitor. * Cita-se o exemplo de um excelente historiador da arte, homem de vasta cultura, que tomou Mr. Pickwick como objeto de suas predileções mais profundas, citando fragmentos do livro de Dickens e associando todos os eventos da vida a episódios dessa obra, até que o universo, a verdadeira filosofia e ele próprio assumiram a forma de Mr. Pickwick por um fenômeno de identificação absoluta. * Chega-se a uma ideia dos clássicos muito alta e exigente. * Chama-se clássico um livro que, à semelhança dos antigos talismãs, se apresenta como um equivalente do universo. * Essa definição conduz à ideia do livro total, tal como foi sonhado por Mallarmé. * Um clássico pode também suscitar uma relação de oposição, de antítese. * Tudo o que Rousseau fez e pensou inspira um desejo incoercível de contradizê-lo, criticá-lo e discutir com ele. * Isso se explica por uma oposição de temperamento, mas não se poderia simplesmente deixar de lê-lo, sendo ele considerado entre os autores do leitor. * O clássico de alguém é aquele que não pode lhe ser indiferente e que serve para se definir em relação a ele, eventualmente em oposição a ele. * O termo "clássico" é usado sem distinção de antiguidade, estilo ou autoridade, sendo o que distingue o clássico talvez apenas um efeito de ressonância, que vale tanto para uma obra antiga quanto para uma obra moderna, se esta já tiver seu lugar em uma continuidade cultural. * Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos. * Quem começou lendo os outros e depois lê aquele reconhece imediatamente o lugar deste na genealogia. * É preciso relacionar a leitura dos clássicos com todas as leituras de livros não clássicos, respondendo à questão de por que ler os clássicos em vez de se concentrar em leituras que façam compreender melhor o próprio tempo, e onde encontrar tempo e liberdade de espírito para ler clássicos quando se está submerso pela avalanche da atualidade. * Poderia se imaginar um indivíduo feliz que dedicasse seu "tempo de leitura" diário exclusivamente a autores como Lucrécio, Luciano, Montaigne, Erasmo, Quevedo, Marlowe, O Discurso do Método, Wilhelm Meister, Coleridge, Ruskin, Proust e Valéry, com algumas incursões em Murasaki ou nas sagas islandesas. * Esse indivíduo, para seguir sua dieta sem contaminações, deveria se abster de ler jornais, nunca se deixar tentar pelo último romance ou pela última pesquisa sociológica. * É preciso verificar se tal rigorismo seria justificado e proveitoso. * A atualidade pode ser banal e mortificante, mas sempre existe um ponto de onde se pode olhar para frente ou para trás. * Para ler os clássicos, também se deve estabelecer de "onde" se os lê, senão tanto o leitor quanto o livro se perdem em uma nuvem atemporal. * A leitura dos clássicos atinge seu rendimento máximo quando alternada, em uma sábia dosagem, com as leituras de atualidade. * Essa dosagem não pressupõe necessariamente paz e equilíbrio interiores; pode ser também fruto da nervosidade, da impaciência, da insatisfação impaciente. * O ideal seria perceber a atualidade como o zumbido da rua, que avisa, através da janela, do tráfego automobilístico e das mudanças meteorológicas, enquanto se segue o discurso dos clássicos, que ressoa claro e estruturado no interior do aposento. * Já é muito se, para a maioria, a presença dos clássicos ressoa como um eco distante, fora do apartamento invadido pela atualidade e pela televisão ligada em alto volume. * É clássico o que tende a relegar a atualidade ao posto de rumor de fundo, sem no entanto pretender extinguir esse rumor. * É clássico o que persiste como rumor de fundo, ali mesmo onde a atualidade que lhe é mais distante reina em senhora. * Ler os clássicos parece em contradição com o ritmo de vida atual, que não conhece mais a lentidão do tempo e as respirações do otium humanista, e com o ecletismo da cultura, incapaz de estabelecer uma definição de classicismo que lhe seja adaptada. * Essas condições foram plenamente realizadas para um Leopardi que vivia no palácio paterno, no culto da Antiguidade grega e latina, e usufruía da enorme biblioteca de seu pai, onde se encontrava toda a literatura italiana e francesa, com exclusão dos romances e, em geral, das novidades editoriais destinadas no máximo aos lazeres de sua irmã ("teu Stendhal", escrevia ele a Paolina). * Mesmo suas vivas curiosidades científicas e históricas, Leopardi as satisfazia em textos que não eram muito atualizados: os costumes das aves em Buffon, as múmias de Frederico Ruysch em Fontenelle, a viagem de Cristóvão Colombo em Robertson. * Atualmente, uma educação clássica como a do jovem Leopardi é impensável, e, sobretudo, a biblioteca do conde Monaldo explodiu. * Os velhos títulos foram dizimados, e os novos se multiplicaram, proliferando ao sabor de todas as literaturas e culturas modernas. * Resta apenas inventar cada qual a biblioteca ideal de seus clássicos, composta por metade dos livros que foram lidos e que contaram, e por metade dos livros que se pretende ler e que se pensa que poderão contar, com uma prateleira vazia para as surpresas e as descobertas ocasionais. * Leopardi é o único nome da literatura italiana citado, resultado da explosão da biblioteca, sendo necessário reescrever todo o artigo para fazer aparecer claramente que os clássicos servem para compreender quem se é e aonde se chegou, confrontando italianos com estrangeiros e estrangeiros com italianos. * Esse confronto torna uns e outros necessários. * Seria preciso reescrever o artigo uma terceira vez para que não se creia, sobretudo, que os clássicos devem ser lidos porque "servem". * A única coisa que se pode afirmar é que ler os clássicos vale mais do que não lê-los. * Se alguém objetar que não vale a pena se dar a todo esse trabalho, cita-se Cioran (que não é um clássico, ao menos até o presente, mas um pensador contemporâneo que começa a ser traduzido na Itália). * A citação de Cioran é: "Enquanto se preparava a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma música de flauta. 'Para que isso servirá? – perguntam-lhe. – Para saber esta música antes de morrer.'"