====== 1. Telêmaco ====== //[[spc>mitologia:campbell:|CAMPBELL, Joseph]]. Mythic worlds, modern words: on the art of James Joyce. Edited by Edmund L. Epstein. Novato: Joseph Campbell Foundation: New World Library, 2003// ** 1. Os Capítulos de Telêmaco: Telêmaco ** O primeiro capítulo de “Ulisses” se passa na torre Martello em Sandycove, onde Stephen Dedalus vive com Buck Mulligan e Haines, e uma missa negra é celebrada como paródia da cerimônia católica, enquanto a velha leiteira, símbolo da própria Irlanda, surge como um chamado para que Stephen vá encontrar seu pai. * Stephen voltou para Dublin e está morando em uma torre Martello (uma fortaleza circular com paredes de seis pés de espessura) com Buck Mulligan, um estudante de medicina irlandês, e Haines, um inglês que veio coletar folclore irlandês, representando o conquistador que agora também leva a cultura do país. * Buck Mulligan sobe as escadas da torre usando um roupão amarelo, carregando uma tigela de espuma de barba com um espelho e uma navalha cruzados sobre ela, e entoa as palavras “Introibo ad altare Dei” (as palavras iniciais da missa), realizando uma paródia da consagração. * Após a missa simulada, os três descem para o café da manhã, e Mulligan serve três ovos fritos, declarando “In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti”, identificando-se como o Pai falso, Stephen como o Filho (Cristo rei e salvador) e Haines (que sonha com uma pantera negra) como o Espírito Santo falso, numa alusão a “Panthera”, o nome do oficial romano que uma calúnia judaica apontava como pai verdadeiro de Jesus. * A velha leiteira que entra na torre é descrita como “seda das vacas” e “pobre velha”, nomes tradicionais da Irlanda, e ela é a contraparte de Atena na “Odisseia”, a deusa que diz a Telêmaco: “Vá encontrar seu pai”. * Stephen percebe que a Irlanda é uma terra devastada de causas perdidas, governada politicamente por um rei inglês, espiritualmente por um papa italiano, sentimentalmente pela retórica e socialmente pelo pub, e decide que deve deixar a torre usurpada para sair em busca de seu pai espiritual. ** 2. Nestor ** No capítulo “Nestor”, ambientado na escola onde Stephen leciona, o diretor sr. Deasy representa o mundo dos mortos-vivos presos a princípios rígidos e a colecionar conchas e moedas (símbolos de vida cristalizada e interrompida), e Stephen declara que a história é um pesadelo do qual tenta despertar. * Deasy é um anglófilo que faz um discurso antissemita sobre os judeus que estariam destruindo a Inglaterra, ao que Stephen responde que um mercador é alguém que compra barato e vende caro, seja judeu ou gentio, e que os judeus “pecaram contra a luz”, mas pergunta: “Quem não pecou?”. * Stephen afirma que “Deus é um grito na rua”, contrariando a visão de Deasy de que toda a história humana caminha para um grande objetivo (a manifestação de Deus no futuro), e defende a imanência divina no presente imediato, ecoando o evangelho gnóstico de Tomé (“O reino do Pai está espalhado sobre a terra e os homens não o veem”). * A frase “História é um pesadelo do qual estou tentando despertar” resume a busca de Stephen pelo núcleo eterno que move todas as metamorfoses, em vez de se prender às formas fenomênicas e aos eventos históricos sucessivos. ** 3. Proteu ** O capítulo “Proteu” apresenta a chave para o dilema de Stephen, que caminha pela praia de Sandymount refletindo sobre as modalidades do visível (espaço) e do audível (tempo), enquanto um homem afogado no mar simboliza Deus afogado no mundo, e Stephen se pergunta se teria a compaixão necessária para mergulhar e salvá-lo. * Stephen caminha em um estado de espírito reflexivo, tentando penetrar o miragem flutuante da fenomenalidade e intuir a substância oculta por trás das modalidades do visível (o Nebeneinander, as coisas “ao lado umas das outras” no espaço) e do audível (o Nacheinander, as coisas “sucedendo umas às outras” no tempo), termos que ele retira de Schopenhauer. * As conchas que se quebram sob seus pés (“Crush, crack, crick, crick”) são “assinaturas de todas as coisas” (expressão de Jakob Boehme), corpos vazios de vida deixados por um processo que ele não contata diretamente, assim como o mundo do sr. Deasy é um mundo de conchas. * O homem afogado ao largo (cujo corpo os barcos vêm pescar) é associado ao rei afogado no oceano que pede ao filho que o resgate, um motivo alquímico e gnóstico que representa o espírito descido à matéria, perdido e à espera de ser salvo pelo “filho do espírito”. * O velho deus irlandês do mar, Mananaan MacLir, é o “senhor da terra abaixo das ondas”, cujos cavalos marinhos de crinas brancas são as próprias ondas, e ele está agora tomando para si o homem afogado, numa imagem da morte como retorno à fonte. * Schopenhauer é evocado por meio de sua pergunta sobre a moralidade: como é possível que um indivíduo arrisque a própria vida para salvar outro, contrariando a primeira lei da natureza (a autoproteção)? A resposta é que tal ato responde à compaixão (Mitleid, “sofrimento compartilhado”), que intui a verdade mais profunda de que self e outro são consubstanciais, da mesma substância. * A data de 16 de junho de 1904, dia da ação do livro, é também o dia em que Joyce, aos 22 anos, passeou pela primeira vez com Nora Barnacle na mesma praia de Sandymount, e a ameaça do casamento (a perda do ego autocentrado) é o problema prático e pessoal que assombra Stephen. * A questão que Stephen se coloca é dupla: “Eu salvaria um homem que está se afogando?” (isto é, teria a compaixão de arriscar minha vida por um outro) e “Posso me abrir para o casamento, para uma vida parcialmente sob o controle de outra pessoa, em vez de permanecer como o centro inviolável da minha própria concha egoica?” * Stephen brinca com a ideia de que, ao fechar os olhos, o mundo visível desapareceria, mas conclui que isso não acontece porque não são seus olhos que criam o mundo (“There all the time without you: and ever shall be, world without end”), numa referência ao olho sem pálpebra de Deus na Cabala. * As duas parteiras que caminham pela praia carregam uma bolsa com um “misbirth with a trailing navelcord, hushed in ruddy wool”, uma premonição do encontro com Bloom, cujo filho Rudy (falecido aos onze dias) foi enterrado com um casaco de lã cor de tijolo. * A palavra gigantesca “contransmagnificandjewbangtantiality” é analisada em seus componentes: “con-” + “tantiality” (consubstancialidade, a mesma substância entre Pai e Filho), “trans-” + “tantiality” (transubstanciação, a mudança da substância do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo), “jew” (judeu, Leopold Bloom) e “magnificat” (“Minha alma engrandece ao Senhor”, a declaração de Maria de que Deus está dentro dela), condensando todo o tema teológico do livro. * A discussão entre Stephen e Deasy sobre a história é retomada: Deasy vê a história caminhando para um grande objetivo futuro (a manifestação de Deus), enquanto Stephen (apontando para o barulho dos meninos jogando hóquei) afirma “That is God”, defendendo que a divindade é imanente no presente, e não apenas no fim dos tempos. * Um cachorro vivo aparece na praia e fareja a carcaça de um cachorro morto, e suas metamorfoses (lebre, buck (veado), bezerro, porco, lobo, pantera) realizam, em miniatura, o tema da “seachange” (metamorfose marinha) que também aguarda Stephen, que se identifica com o “poor dogsbody” (pobre corpo de cachorro). * A imagem do cachorro morto (“dogsbody”) sendo farejado pelo cachorro vivo (“dog”) antecipa a cena do capítulo Circe onde a palavra “Dog” será invertida em “God” (pois Deus está presente no cachorro), e onde Stephen será derrubado por um “cachorro inglês” (um soldado do exército britânico de vermelho). * Stephen cita os versos de Ariel em “A Tempestade” (“Full fathom five thy father lies... Nothing of him that doth fade, But doth suffer a sea-change”), e imagina o corpo do homem afogado (seu pai simbólico) se desintegrando e se transformando em outras formas (“God becomes man becomes fish becomes barnacle goose becomes featherbed mountain”). * O capítulo termina com a imagem de Stephen se entregando à maré (“Yes, evening will find itself in me, without me. All days make their end”), e essa é a preparação para o encontro com Leopold Bloom no capítulo seguinte, que é o pai, mas também o homem afogado no mar da vida conjugal com Molly.