====== Alquimia Divina ====== //Daniel Gabelman, in MACLACHLAN, Christopher. Rethinking George MacDonald: Contexts and Contemporaries. Glasgow: Association for Scottish Literary Studies, 2013.// **O CONTEXTO DOS MILAGRES NA ERA VITORIANA** * A definição de milagre como violação das leis naturais estava sendo questionada pelo espírito da época, mas esse mesmo questionamento fazia com que os vitorianos se engajassem intensamente na defesa ou no ataque aos milagres. * Tanto os opositores quanto os defensores do cristianismo concordavam que a verdade e a validade da fé cristã dependiam desses eventos extraordinários. * A obra “Os Milagres de Nosso Senhor”, de George MacDonald, é uma contribuição fascinante para esse debate cultural, por três razões principais: ser a culminação de uma contratradição iniciada por Coleridge e continuada por Maurice; evitar argumentos racionais em favor de explorações imaginativas dos milagres; e aplicar esse entendimento ao próprio modo de criação literária de MacDonald. **A CONTRATRADIÇÃO DE COLERIDGE E MAURICE** * Filósofos do Iluminismo, como Spinoza e Hume, argumentaram que milagres são violações das leis da natureza e que não seria possível reunir evidências suficientes para comprová-los. * Hume definiu o milagre como violação das leis da natureza e afirmou ser impossível haver testemunhas e evidências confiáveis para confirmá-lo. * Spinoza declarou que milagres não podem revelar a essência e existência de Deus, pois os atributos divinos são melhor inferidos pela ordem regular e imutável da natureza. * Racionalistas cristãos, como Paley, defenderam os milagres bíblicos como evidências históricas necessárias do cristianismo, baseadas em testemunhos confiáveis. * Paley argumentou que milagres são realizados na promulgação de uma revelação e que, por Jesus os ter realizado diante de muitas testemunhas, as pessoas podem confiar que sua mensagem vem de Deus. * O teólogo James Mozley resumiu esse sentimento ao afirmar que o cristianismo é a religião do mundo civilizado e é crido com base em suas evidências milagrosas. * Coleridge, após sua reconversão ao cristianismo trinitário, opôs-se tanto aos filósofos seculares quanto aos apologetas cristãos, recusando-se a definir milagres como suspensões das leis da natureza. * Coleridge negou que milagres fossem evidências externas da verdade do cristianismo sobre as quais alguém pudesse construir sua fé. * Em “The Statesman’s Manual”, Coleridge afirmou que milagres servem para derrubar a usurpação exercida pelos sentidos, pois a razão e a religião são suas próprias evidências. * A fé é um pré-requisito para os milagres, e o valor deles está em sinalizar a interação de Deus com o mundo, não em verificar declarações doutrinárias. * Na “Biographia Literaria”, Coleridge delineou as verdadeiras evidências do cristianismo, dando lugar relativamente insignificante à razão humana e aos milagres como evidência histórica. * A consistência com a reta razão é o pátio externo do templo; os milagres são os degraus e o vestíbulo. * O sentimento interior, a desejabilidade excessiva, é o verdadeiro fundamento do edifício espiritual. * A experiência derivada da conformidade prática com as condições do evangelho forma o teto abobadado, e a fé é a pedra-chave de fechamento. * Frederick Denison Maurice desenvolveu as ideias de Coleridge, afirmando que milagres não são violações ou interrupções da natureza, mas sim o levantamento do véu que esconde Deus, o trabalhador primordial. * Maurice reconheceu a força do argumento iluminista de que grandes verdades são melhor ilustradas pela ordem regular da natureza. * Milagres apontam para Deus como a causa da natureza, combatendo uma visão mecanicista e materialista do cosmos. * Seguidores de Maurice e Coleridge, como A. J. Scott e Charles Kingsley, enfatizaram que milagres apontam para Deus como a causa pessoal por trás de cada efeito no universo. * Scott argumentou que milagres não são suspensão ou violação das leis do universo, pois a agência direta de Deus é tanto uma lei quanto a gravitação. * Kingsley, em “Alton Locke”, afirmou que quebrar os costumes da natureza não é quebrar suas leis, pois as leis mais profundas da natureza são as invisíveis. * David Strauss, em “A Vida de Jesus”, argumentou que os milagres são mitos que devem ser considerados não como expressão de um fato, mas como produto de uma ideia. * Maurice respondeu que Strauss, com sua interpretação mítica, abriu a verdadeira origem sobrenatural de toda a história. * Para Maurice, os milagres bíblicos são mitos que realmente aconteceram, sendo manifestações e não exceções. * Maurice, em seu sermão “Os Milagres”, definiu milagres não como argumentos para convencer o entendimento, mas como revelações da natureza, caráter e mente do Filho do Homem. * Milagres são importantes não como fundamento racional da fé cristã, mas como mediadores para um encontro íntimo com Deus. * Milagres são parábolas visuais e espetáculos de ensino, testemunhas internas do caráter de Deus, não testemunhas externas que dão crédito à Escritura. **A CULMINAÇÃO DA CONTRATRADIÇÃO DOS MILAGRES EM MACDONALD** * “Os Milagres de Nosso Senhor” foi originalmente serializado na “Sunday Magazine” entre 1869 e 1870, sendo dedicado a F. D. Maurice, que provavelmente influenciou diretamente a obra. * Maurice era amigo de MacDonald, que frequentava suas pregações e nomeou seu filho com o nome de Maurice, pedindo-lhe que fosse padrinho. * Maurice perguntou a MacDonald se ele teria interesse em colaborar em uma obra sobre a unidade da igreja. * Na introdução do livro, MacDonald explica que os milagres são modos pelos quais a vida invisível de Jesus encontrou expressão, devendo-se chegar através deles a algum conhecimento dessa vida. * MacDonald afirma que os milagres não são violações das leis da natureza, mas um possível cumprimento de suas leis mais profundas. * A fé em Jesus é pré-requisito para crer em milagres, e não o contrário. * Milagres são o Filho fazendo breve e nitidamente diante dos olhos o que o Pai faz de forma tão ampla e grandiosa que transcende a visão dos homens. * MacDonald concorda parcialmente com a filosofia do Iluminismo sobre a grandeza do funcionamento regular da natureza, mas critica sua compreensão mecanicista do cosmos. * Milagres são menores do que os processos da natureza quando Deus é contemplado em seu coração, mas são muito mais poderosos do que qualquer processo natural visto por olhos comuns que dissociam a natureza de uma Vontade viva. * Milagres mostram que o mundo é governado não por acaso aleatório ou forças abstratas, mas pela Vontade pessoal. * MacDonald afirma que o poder, em si mesmo, é uma coisa pobre, sendo o amor que está na raiz do poder a única coisa que pode criar. * Sem a força interna e interpessoal do amor, o poder externo seria solitário e vazio. * MacDonald evita a apologética racional direta em favor de um encontro pessoal com os próprios milagres, dirigindo-se a um leitor que passou por um curso diferente de pensamento e experiência. * O tipo comum de crença em Deus é racionalmente insustentável, sendo uma adoração dividida entre uma natureza insensata e um Deus vivo. * Despertar a esperança de que pode haver um Deus com um coração como o nosso é mais para a humanidade do que produzir a convicção absoluta de que existe um ser que fez os céus e a terra. * “Os Milagres de Nosso Senhor” é um livro estranho que não se encaixa claramente em categorias de gênero, sendo mais importante para MacDonald a experiência pessoal e a transformação dos indivíduos que recebem os milagres. * Os milagres eram de valor inestimável e influência infinita sobre seus sujeitos, e o verdadeiro modo pelo qual alcançavam outros era através dos próprios curados. * O testemunho das línguas podia atestar um fato, mas o testemunho das vidas podia atestar uma verdade. * Uma maravilha é uma coisa pobre para a fé, e o milagre só poderia ser uma maravilha aos olhos daqueles que não haviam orado por ele e não podiam dar graças por ele. * MacDonald aborda os milagres imaginativamente, escolhendo ver um milagre através dos olhos de seu destinatário, acreditando que isso tem mérito científico legítimo. * Há um amplo “pode ser” ao redor, e toda especulação verdadeira amplia a probabilidade de mudar o “pode ser” para o “é”. * Milagres não estabelecem e sustentam uma dicotomia entre natural e sobrenatural, mas redefinem o conceito de realidade. **A ALQUIMIA DIVINA DE MACDONALD** * MacDonald afirma que o primeiro milagre de Jesus, transformar água em vinho, é um símbolo verdadeiro do que ele fez pelo mundo ao glorificar todas as coisas. * Com sua alquimia divina, Jesus transforma não apenas água em vinho, mas coisas comuns em mistérios radiantes, e cada refeição em uma eucaristia. * Jesus não faz qualquer mudança nas coisas ou nos caminhos de Deus, mas uma grande mudança nos corações e olhos dos homens, para que os fatos e significados de Deus se tornem suas fés e esperanças. * Essa descrição dos milagres corresponde de perto à prática artística de MacDonald em seus contos de fadas, que tentam revelar e reorientar os indivíduos para os mistérios radiantes sempre presentes nas coisas comuns. * Em “As Sombras”, Ralph Rinkelmann descobre que sua jornada fantástica fez com que as coisas comuns revelassem o maravilhoso que havia nelas. * Contos de fadas não tornam o mundo cotidiano monótono, mas ajudam a revelar a beleza e o esplendor escondidos no ordinário. * Em “Adela Cathcart”, a personagem título comenta que histórias lúdicas fazem a vida parecer muito mais possível e o mundo inteiro parecer mais como a obra de Deus. * As histórias de MacDonald “para os semelhantes a crianças” apelam para a beleza resplandecente e a bondade lustrosa, em vez da verdade intelectual. * Na “Fantasia Fantástica”, MacDonald associa a idade adulta com a ganância intelectual pela verdade, e a infância com o anseio pela bondade e beleza. * Contos de fadas despertam esperança e desejo, não adicionando ao depósito de informação, mas elicitando emoções e encorajando a transformação. * Contos de fadas são outra maneira de minar o espírito degradante do lugar-comum, que suga a vida da crença. * “Os Milagres de Nosso Senhor” oferece uma visão sobre a hermenêutica de MacDonald, especialmente sua hermenêutica de contos de fadas, defendendo sua abordagem imaginativa aos relatos evangélicos. * Os registros no Evangelho são muito breves e condensados, e os germes de uma inteligência verdadeira devem estar nesta pequena semente, com os corações sendo o solo no qual ela deve se desdobrar. * A interpretação que MacDonald oferece, mesmo que não atinja a marca do fato, é feita de maneira digna do que ele aprendeu sobre Jesus. * A brevidade das narrativas do evangelho não é uma deficiência, mas cria espaços imaginativos nos quais todos os leitores podem brincar, sendo as histórias de milagres pequenas sementes que só se desdobram no solo fértil de uma mente receptiva. * O estilo bíblico está carregado de pano de fundo no que deixa de fora, operando pela influência sugestiva do não expresso e abrindo uma multiplicidade de significados. * Contos de fadas, como os relatos evangélicos, são intencionalmente breves e condensados porque esse espaço vazio convida os leitores a participarem do jogo de criação de significado. * A interpretação, para MacDonald, tem menos a ver com encontrar um único significado correto e mais com interpretar amorosamente, ecoando Santo Agostinho. * Se um homem extrai da escritura um significado que pode ser usado para a edificação do amor, mesmo que não encontre o significado preciso que o autor pretendia, seu erro não é pernicioso. * O amor é mais importante do que a verdade no processo de interpretação bíblica, e MacDonald estende essa regra para além da Bíblia e para a terra das fadas. * “Os Milagres de Nosso Senhor” não é um livro periférico e esquecível na obra de MacDonald, mostrando-o engajado com as preocupações de seu tempo e extraindo de tradições teológicas e literárias ricas. * MacDonald é um tipo de alquimista divino, tomando ensinamentos comuns e desvendando a beleza e bondade sempre presentes dentro deles.