O dizer é um fazer nos textos fechados de
Beckett, onde não se pode sair das convenções linguísticas para verificá-las, uma restrição que, tanto em Wittgenstein quanto em
Beckett, milita contra argumentos éticos e define o espaço lógico do mundo.
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A impossibilidade de sair da linguagem leva a tentativas de correr contra as paredes da “gaiola”, atividade característica em “The Lost Ones”.
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Os lugares fechados de
Beckett são alegorias do anseio por exceder as barreiras que a linguagem marca, operando com uma higiene wittgensteiniana de afirmações factuais, não de valores.
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Para além do lugar fechado da linguagem, situa-se o “místico” ou o “mistério”, cujo acesso é permanentemente negado, mas cuja noção de existência é difundida.
A distinção entre os textos “Tractatus” e “Investigações” de
Beckett também se manifesta na qualidade de suas ambientações cênicas, onde as primeiras possuem qualidades de projeção geométrica (esparsidade, clareza, equilíbrio), enquanto as segundas são incrustadas no tempo, localidades e corpos.
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Os cenários de
Beckett para peças como “Eh Joe” e “What Where” compartilham a arquitetura severa, desornamentada e taciturna da mansão que Wittgenstein construiu para sua irmã.
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A simplicidade austera desses espaços, tanto em Wittgenstein quanto em
Beckett, arrisca causar repulsa, mas é transfigurada por harmonias de volume, proporção e matiz.
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Em contraste, textos como “Heard in the Dark 2” apresentam uma representação minuciosa de uma propriedade e da dinâmica da melancolia, culpa e pressentimento, inserida na temporalidade da lembrança.
O fracasso é concebido por ambos os autores primeiramente como uma terapia e depois como um horizonte, uma admissão salutar de falibilidade e, finalmente, uma insistência na limitação inarredável, tornando-se uma credencial.
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Beckett afirma que ser artista é falhar como ninguém ousa, pois o fracasso é seu mundo, uma fórmula que culmina no adágio popular “Falhar melhor”.
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Wittgenstein e
Beckett depositam uma fé no fracasso como meio e fim, encontrando nas possibilidades inexploradas da falha em expressar um estímulo para prosseguir.
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A falha em viver, para os personagens de
Beckett, torna-se um modo de vida, assim como a percepção da própria ignorância foi o ponto de partida para obras centrais de ambos.
A narração inconsequente e abortiva nos primeiros textos em francês de
Beckett é a instância formal característica do fracasso, onde as histórias são paliativos que não passam o tempo e o narrador falha em silenciar.
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Malone, em “Malone Dies”, anuncia que recomeça não mais para ter sucesso, mas para falhar.
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O narrador de “The Unnamable” reconhece que todas as palavras são poucas e que as palavras e a voz falham.
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A falha em impor uma ordem composicional a anotações inconclusivas, para Wittgenstein, revela a própria validade e vitalidade do “dado”, o fundamento não fundamentado da linguagem.
A experiência da ignorância é vivenciada como um avanço, manifestando-se em estilos que incorporam a gagueira, o balbucio e a falta de dentes como formas de eloqüência indireta e autenticidade filosófica e literária.
A indigência estilística, longe de ser um defeito, é apresentada como uma qualificação, uma pobreza sagrada que valida a expressão, onde a argumentação autodestrutiva é a única forma adequada de afirmar a validade do que se tenta dizer.
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Wittgenstein, no prefácio das “Investigações”, chama a atenção para a “indigência” do livro, uma pobreza que qualifica a afirmação filosófica.
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Beckett sonha com uma arte não ressentida de sua indigência insuperável e, em “Três Diálogos”, emprega uma argumentação autodestrutiva para afirmar a validade do nada a expressar.
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O “Tractatus” é um paradigma dessa estrutura, onde o sucesso do livro reside em ser visto como um fracasso, mostrando através da tentativa falha de dizer o que não pode ser dito.
A fidelidade ao fracasso torna-se uma nova ocasião para o ato expressivo, que, mesmo ciente de sua impossibilidade e obrigação, pode fazer ressoar um eco do “dito errado” contra a membrana do silêncio.