A temática da Anábase poderia ter se adequado a um relato picaresco ou heroico-cômico, com dez mil mercenários gregos engajados por Ciro, o Jovem, para destronar seu irmão Artaxerxes II, que após a derrota em Cunaxa se veem sem chefes, longe da pátria, tendo que abrir caminho de volta entre populações inimigas.
-
Os dez mil homens, armados, famintos, pilham e destroem como um enxame de gafanhotos por onde passam, arrastando um grande número de mulheres.
-
Xenofonte não se deixava tentar pelo estilo heroico da epopeia ou pelos aspectos truculentos e grotescos da situação.
-
Seu memorial é técnico, de um oficial, um diário de viagem com distâncias, pontos de referência geográficos, informações sobre recursos animais e vegetais, e relato de problemas diplomáticos, logísticos, estratégicos e suas soluções.
-
Ao relato são intercaladas “atas de reunião” do estado-maior e discursos de Xenofonte às tropas ou aos embaixadores dos bárbaros, cada um evocando um problema de política externa (relações diplomáticas com príncipes e chefes dos territórios) ou interna (discussões entre chefes helênicos com rivalidades entre atenienses e espartanos).
-
O segredo da leitura da Anábase é nunca saltar nada, seguir tudo ponto por ponto.
-
O livro é escrito sob uma forma polêmica contra outros generais, sobre as responsabilidades de cada um na condução da retirada.
-
Comparado a T.E. Lawrence, a maestria do inglês reside na suspensão de um halo de encantamento estético e ético em torno dos eventos, enquanto no grego a exatidão e a secura não apresentam nenhum subentendido, sendo as duras virtudes do soldado apenas isso.
-
Existe um pathos da Anábase, que é a angústia do retorno, a desorientação em país estrangeiro e o esforço para não se dispersar, pois, enquanto estão juntos, transportam de certa forma sua pátria consigo.
-
Essa luta pelo retorno de um exército conduzido à derrota numa guerra que não era a sua, abandonado a si mesmo, com batalhas travadas apenas para abrir uma via de saída entre ex-aliados e ex-inimigos, aproxima a Anábase de livros de memórias sobre a retirada da Rússia dos caçadores alpinos italianos.
-
Em 1953, Elio Vittorini, ao apresentar O Sargento na Neve, de Mario Rigoni Stern, usou a definição de “pequena anábase dialetal”.
-
Os capítulos da retirada na neve da Anábase são ricos em episódios que poderiam ser tomados como os do Sargento.
-
O que caracteriza a obra de Rigoni Stern e outros melhores livros italianos sobre a retirada da Rússia é que o narrador-protagonista é um bom soldado, como Xenofonte, e fala das ações militares com competência e tomando partido.
-
Para eles, como para Xenofonte, as virtudes guerreiras, no desmoronamento geral das ambições mais pomposas, tornam-se virtudes práticas e de solidariedade para medir a capacidade de cada um de ser útil a si mesmo e aos outros.
-
Citam-se A Guerra dos Pobres, de Nuto Revelli, pela fúria apaixonada do oficial decepcionado, e Os Longos Fuzis, de Cristoforo M. Negri.
-
As analogias param aí, pois as memórias dos Alpinos nascem do contraste entre uma Itália humilde e cheia de bom senso e as loucuras e o massacre da guerra total, enquanto nas memórias do general do século V o contraste é entre a situação de enxame de gafanhotos do exército de mercenários helênicos e o exercício das virtudes clássicas, filosóficas, civis e militares que Xenofonte tenta adaptar às circunstâncias.
-
Xenofonte parece seguro de ter conseguido conciliar os dois termos, aplicando um código de disciplina e dignidade (um “estilo”) à condição de gafanhoto, sem discutir o fato de sê-lo, mas apenas a melhor maneira de sê-lo.
-
Em Xenofonte, a ética moderna de uma perfeita eficácia técnica (ser “à altura da situação” e “fazer bem as coisas que se faz”) está já bem delineada, independentemente da avaliação da ação em termos de moral universal.
-
Xenofonte tem o grande mérito moral de não enganar, de nunca idealizar a posição que tomou, sendo-lhe estranha a hipocrisia “colonialista”, pois sabe que está à frente de uma horda de saqueadores em terra estrangeira e que a razão não está do seu lado, mas do lado dos bárbaros invadidos.
-
Em suas exortações aos soldados, não deixa de lembrar as razões dos inimigos: “Os inimigos terão tempo para nos saquear, e têm boas razões para nos atacar, dado que ocupamos a propriedade deles…”
-
Toda a sua dignidade reside nessa busca por dar um estilo, uma norma ao movimento biológico de homens ávidos e violentos entre as montanhas e planícies da Anatólia: uma dignidade limitada, não trágica, burguesa no fundo.
-
A armada dos Helenos que serpenteia entre gargantas de montanhas e vaus, entre emboscadas e pilhagens, sem distinguir quando é vítima e quando se torna opressora, inspira uma angústia simbólica que talvez só os leitores de hoje possam compreender.