2. Odisseu

CAMPBELL, Joseph. Mythic worlds, modern words: on the art of James Joyce. Edited by Edmund L. Epstein. Novato: Joseph Campbell Foundation: New World Library, 2003

II. Os Capítulos de Odisseu: Introdução

Os doze capítulos centrais de “Ulisses” são dedicados às aventuras de Leopold Bloom, um homem gentil, generoso e compassivo que, ao contrário de Stephen (que se autoexcluiu da sociedade), é excluído pelos outros por ser considerado judeu em Dublin, e que vagueia pela cidade tentando não pensar no encontro que sua esposa Molly terá com seu amante Blazes Boylan.

Calipso

No capítulo “Calypso”, Bloom prepara o café da manhã para Molly (que fica na cama, como a ninfa Calypso na ilha), ele come um rim de porco (em vez dos ovos dos homens da torre, mostrando-se em contato com o ritmo da natureza), e a filha Milly (sua “Pequena Lua”) escreve uma carta mencionando a música de Blazes Boylan, lembrando-o novamente do adultério iminente.

Lotus-Eaters

No capítulo “Lotófagos”, Bloom retira uma carta de sua correspondente secreta Martha (sob o nome de Henry Flower) na agência dos correios, saboreia a fantasia de um caso com uma ninfa invisível (a mulher do quadro), e depois entra em uma igreja católica, onde observa a comunhão e a compara mentalmente ao canibalismo do “Corpus” (“corpse”).

Hades

No capítulo “Hades”, Bloom participa do enterro de Paddy Dignam no cemitério, viajando na carruagem com Simon Dedalus (pai de Stephen), e reflete sobre a morte do filho Rudy (“If little Rudy had lived. See him grow up. Hear his voice in the house. Walking beside Molly in an Eton suit. My son.”) enquanto o cortejo passa por Blazes Boylan.

Éolo

No capítulo “Éolo” (no redação do jornal “The Freeman’s Journal”), Stephen e Bloom se cruzam pela primeira vez (mas não se reconhecem formalmente), enquanto as “palavras” (os ventos) são sopradas em artigos que transmitem informações erradas, e o próprio jornal é descrito como um “reino dos ventos”.

Lestrigões

No capítulo “Lestrigões” (inspirado nos gigantes canibais), Bloom percorre vários restaurantes de Dublin em busca do almoço, e o estilo de escrita é tão sensorial e focado em comida (cheiros, texturas, gostos) que o leitor sai “lambuzado de torta, gordura, peixe e tudo mais”.

Cila e Caríbdis

No capítulo “Cila e Caríbdis” (na Biblioteca Nacional), Stephen expõe sua teoria (que ele mesmo não acredita) sobre Shakespeare: de que o fantasma do rei Hamlet é o próprio Shakespeare (interpretando seu papel de pai morto), o príncipe Hamlet é seu filho Hamnet (morto aos onze anos), e a rainha infiel é Ann Hathaway, que o traiu.

As Rochas Errantes

O capítulo “As Rochas Errantes” é composto por dezenove pequenas cenas que compõem um retrato panorâmico de Dublin (como um microcosmo do “Finnegans Wake”), onde cada cena re-renderiza um motivo de outros capítulos, e o protagonista é a própria cidade moderna.

Sereias

O capítulo “Sereias” (escrito em estilo musical, com aberturas, temas e recapitulações) mostra Bloom no bar do Hotel Ormond (onde as sereias são as garçonetes), enquanto no salão ao lado Simon Dedalus (pai de Stephen) canta a antiga canção de amor “Love’s Old Sweet Song”, e Bloom sabe que Blazes Boylan está neste momento em sua casa com Molly.

Ciclope

No capítulo “Ciclope” (no pub Barney Kiernan), um narrador anônimo (um “valentão irlandês”) conta a história em um estilo coloquial e violento, interrompido por gigantescas digressões em estilos elevados (épico irlandês, jornalístico, bíblico), enquanto o nacionalista “cidadão” (um olho só, a política) provoca Bloom, que declara que o amor (“Love”) é o oposto do ódio e a verdadeira vida.

Nausícaa

O capítulo “Nausícaa” é escrito no estilo de uma revista feminina sentimental (para adolescentes) e mostra Bloom na praia de Sandymount, onde ele observa (e tem um orgasmo) enquanto observa Gerty MacDowell, uma bela jovem coxa que, ao se levantar e ir embora, revela ser manca (“Tight boots? No. She’s lame! O!”), despertando a compaixão de Bloom.

Bois do Sol

O capítulo “Bois do Sol” (uma das passagens mais difíceis do livro) é escrito em uma série de estilos que ecoam o desenvolvimento da literatura inglesa (do latim arcaico, passando pelo anglo-saxão, Chaucer, Elizabeth, até Dickens e o inglês americano), enquanto a própria história descreve uma difícil gestação e um parto na maternidade de Holles Street.

Circe: Introdução

O capítulo “Circe” (147 páginas, cerca de um quarto do livro) é escrito em forma de peça de teatro (com didascálias, falas e direções de palco), e se passa em Nighttown (o distrito dos bordéis de Dublin), onde Bloom e Stephen começam a alucinar à medida que seus egos se dissolvem e o inconsciente pessoal (fantasias de culpa, megalomania e sexualidade) emerge.

Nighttown

Em Nighttown, enquanto Stephen vagueia entoando o “Vidi aquam” (a missa da Páscoa), Bloom o segue e começa a alucinar julgamentos (mulheres o acusam de enviar cartas obscenas) e punições (a cafetina Bella Cohen se transforma em um homem, “Bello”, que o domina e o transforma em um porco fêmea), até que Stephen, bêbado e desorientado, tem uma visão de sua mãe morta (com um caranguejo verde com olhos vermelhos cravado em seu coração) e esmaga um lustre com sua bengala.