Stephen Prickett, in MACLACHLAN, Christopher. Rethinking George MacDonald: Contexts and Contemporaries. Glasgow: Association for Scottish Literary Studies, 2013.
A Ideia de Tradição em George MacDonald
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O parágrafo trata do reaparecimento da palavra “tradição” na língua inglesa em meados do século XIX, após um período de virtual desaparecimento nos cem anos anteriores.
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A palavra era raríssima em escritores do século XVIII, como Addison, Burke, Warburton e Wesley, e mesmo Burke a usou apenas duas vezes em sua obra.
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Os românticos, incluindo Coleridge, também evitavam o termo, utilizando-o, quando muito, no sentido de uma transmissão não confiável do passado.
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Acredita-se que a tradução de 1833 da obra de Herder por James Marsh foi um dos fatores cruciais para o retorno da palavra ao uso geral.
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Em meados do século XIX, existiam pelo menos quatro conotações sobrepostas ou concorrentes para a palavra “tradição”.
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A visão mais antiga e comum, ainda presente, era a de uma transmissão oral não confiável e de autenticidade duvidosa, defendida por Francis Newman.
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John Henry Newman, irmão de Francis, desenvolveu uma concepção de tradição como um processo de desenvolvimento e assimilação constante de novas ideias, como um organismo vivo.
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John Keble, por outro lado, via a tradição como uma herança preciosa e inalterável que deveria ser mantida sem modificações.
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Christina Rossetti, ciente da controvérsia, usava o termo de forma quase neutra, no sentido de “sabedoria antiga”.
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Apesar das diferentes conotações, a invocação e o debate generalizados sobre a tradição indicam sua importância central para as questões da época.
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As definições de tradição não eram seladas e havia muita sobreposição e ambiguidade entre elas.
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Muitos usuários da palavra talvez não percebessem o quanto o termo era um território contestado.
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Em uma sociedade de mudanças rápidas, a compreensão da continuidade com o passado, representada pela tradição, ou sua rejeição, era fundamental.
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George MacDonald raramente usava a palavra “tradição”, e as evidências de suas opiniões sobre o assunto devem ser buscadas de forma indireta.
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A palavra “tradição” aparece apenas cerca de trinta vezes em toda a sua obra, o que por si só pode ser um indício revelador.
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Os tributos a MacDonald tendem a perpetuar a crítica romântica, concentrando-se em sua originalidade, o que resulta em um reconhecimento insuficiente de sua dívida com o passado.
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G. K. Chesterton, por exemplo, atribuiu a originalidade das fadas de MacDonald a “acidentes de gênio”, em vez de conexões com uma tradição literária.
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Críticos como os Inklings e Auden valorizaram em MacDonald suas qualidades “mitopoéticas” em detrimento de suas habilidades narrativas ou literárias.
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C. S.
Lewis, Tolkien e Williams priorizaram os aspectos mitopoéticos nas obras de MacDonald.
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Auden via no poder de MacDonald de projetar sua vida interior em imagens uma prova de que ele era um dos escritores mais notáveis do século XIX.
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Essa ênfase na originalidade e descontinuidade torna mais difícil perceber a continuidade de sua obra com uma tradição literária maior e mais antiga.
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As fantasias adultas de MacDonald, “Phantastes” (1858) e “Lilith” (1895), são obras que fazem uso explícito da tradição literária, mas a crítica focou mais em sua originalidade.
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John Docherty é um dos poucos críticos a ter enfatizado o contexto literário da fantasia de MacDonald, especialmente seu diálogo com
Lewis Carroll.
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Como editor de “England’s Antiphon”, MacDonald foi influenciado pela tradição do passado tanto quanto por qualquer contemporâneo.
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“Lilith”, em particular, tem sido vista como uma obra falha, confusa e controversa, com críticos como Rolland Hein julgando-a inferior a “Phantastes” devido à fraca qualidade dramática.
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Colin Manlove e C. S.
Lewis ofereceram apreciações mais positivas de “Lilith”, com
Lewis fornecendo uma interpretação detalhada da obra como um drama espiritual interno.
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A interpretação de
Lewis de “Lilith” se baseia em dois princípios fundamentais: todos os eventos do outro mundo são puramente espirituais/metafóricos e ocorrem dentro da psique individual.
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Lewis ignorou as restrições de MacDonald contra a alegoria e leu a narrativa como um sistema alegórico coeso.
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A violência no livro é não realista, pois poucos personagens são efetivamente mortos, reforçando a leitura interna dos eventos.
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As crianças ou “Amantes” não devem ser vistas como imaturas, mas sim como “semelhantes a crianças”, no sentido bíblico do termo.
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O papel dos livros e da biblioteca em “Lilith” é central para a interpretação de que a obra é uma narrativa de autoexploração e autodescoberta, que se baseia na sabedoria herdada.
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Um livro específico na trama, que se refere a Lilith, conecta os dois mundos (externo e interno).
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O autoconhecimento para MacDonald não vem apenas da introspecção, mas também de um vasto corpo de sabedoria acumulada ao longo do tempo.
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A presença de arquétipos, como a “mulher sábia” (Mara) e o “velho homem” (Sr. Raven), antecipa temas junguianos, mas ambos são produtos da tradição literária europeia.
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A criação da personagem Lilith por MacDonald parece ter sido influenciada pela figura de Geraldine, do poema “Christabel”, de Coleridge.
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Tanto Lilith quanto Geraldine possuem marcas misteriosas e terríveis em seus corpos.
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Ambas as personagens têm uma atitude vampírica, sendo resgatadas pela heroína inocente e depois exercendo poder sobre ela.
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O poema “Christabel” de Coleridge foi uma fonte de inspiração para mitos do século XIX, incluindo “Frankenstein”, de Mary Shelley, e “The Vampyre”, de Dr. Polidori.
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A personagem Lilith é revelada como autora de um livro misterioso que existe em ambos os mundos, sugerindo que ela é, de certa forma, uma projeção ou criação do protagonista.
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O livro está em um manuscrito de pergaminho, escrito em uma linguagem universal da alma que Vane consegue entender perfeitamente.
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O trecho lido pelo Sr. Raven é um poema autobiográfico e confessional da própria Lilith, no qual ela descreve como se materializa através da crença de um homem.
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Lilith afirma que precisa de um homem que acredite no que não vê para ganhar substância e forma, ecoando a definição bíblica de fé.
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O poema de Lilith revela que ela é uma espécie de “vampiro da alma”, que se alimenta das aspirações mais nobres e da fome romântica por algo transcendente em suas vítimas.
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Ela se descreve como uma “coisa sem corpo” que faz o homem amá-la com um “anseio” por algo que ele não sabe o que é.
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Lilith é uma “coisa sem coração” que dá nada em troca, enquanto o homem dá todo o seu ser para vesti-la de humanidade.
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Embora ela se alimente das almas de suas vítimas, seu apelo é sutil e perigoso porque assume a forma dos desejos mais nobres de cada um, representando, em última análise, a Morte.
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O tema central de “Lilith” é a morte, fazendo da obra um “Todesroman” (romance de morte), um fenômeno literário raro, mas não único.
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A influência do pensamento alemão, especialmente de
Goethe, em MacDonald é significativa e se manifesta em suas fantasias, incluindo “Lilith”.
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MacDonald foi expulso de seu ministério em Arundel acusado de estar contaminado pelo pensamento alemão, demonstrando seu interesse pela literatura germânica.
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A dívida de MacDonald com “Wilhelm Meister”, de
Goethe, é evidente em várias de suas obras, especialmente nos livros da Princesa e em “The Golden Key”.
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A cena da iniciação maçônica em “Wilhelm Meister”, onde o personagem recebe o livro de sua própria vida, apresenta um recurso de autorreflexividade que antecipa aspectos de “Lilith”.
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A obra de
Goethe, embora ele não se considerasse um cristão no sentido tradicional, está profundamente impregnada da tradição literária judaico-cristã, o que também se aplica a MacDonald.
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A visão de mundo como um texto a ser decifrado (hermenêutica) é uma tradição que remonta à formação do cânon bíblico.
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Na teologia cristã, a vida de cada pessoa é vista como parte de um grande “livro” sobrenatural, com o anjo registrador anotando todas as ações.
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A morte, em “Lilith” como em
Dante, não é um fim, mas uma transição para uma vida eterna mais rica, exigindo completa abnegação do self.
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A interpretação de
Lewis de “Lilith” como um drama interno da alma demonstra que a obra, ao mesmo tempo complexa e original, é também profundamente tradicional.
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Lewis, contemporâneo de Jung, conseguiu ler “Lilith” como uma alegoria espiritual interna, em vez de uma alegoria no sentido mais antigo.
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A obra é uma nova forma literária que evoluiu por meio de uma progressão técnica que parece inevitável em retrospecto.
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O tratamento da morte em “Lilith” não é o de um homem velho próximo da morte, mas sim a visão de que a morte é um começo deslocado, não o fim das coisas.
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Em “Lilith”, a “casa da morte” do Sr. Raven é uma expressão simbólica da dependência absoluta do homem em relação a Deus, ecoando a teologia de Schleiermacher.
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A acusação contra MacDonald de estar contaminado pela teologia alemã está diretamente ligada à influência de Schleiermacher, que é citado em “Phantastes”.
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Schleiermacher proclamava que a crença verdadeira não é aceitar o que outro fez, mas uma experiência pessoal e de primeira mão, sem a qual não se compreende a religião.
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“Morrer” no sentido do Sr. Raven é algo que cada um deve fazer por si mesmo, transformando a experiência pessoal em um princípio estético de originalidade.
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A morte em “Lilith” é apresentada como um “sacramento reverso”, no qual a realidade física da morte no mundo externo se torna um símbolo de uma realidade espiritual maior.
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Um sacramento comum é a expressão visível de um evento espiritual interno, mas no outro mundo de “Lilith” a morte física se torna o símbolo da dependência de Deus.
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MacDonald aplicou a ideia de tradição de Newman como processo de mudança e desenvolvimento, não como repetição, mas agora no âmbito da narrativa ficcional.
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A atração quase erótica pela “casa da morte” e pela própria Lilith foi um dos elementos que mais perturbou os primeiros leitores vitorianos, incluindo a esposa de MacDonald.
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A reversão entre estados internos e externos em “Lilith” faz com que os sonhos adquiram mais realidade que os estados de vigília, levando a um final ambíguo e deliberadamente incerto.
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O livro termina com uma citação de Novalis: “Nossa vida não é um sonho, mas deveria e talvez se tornará um”, ecoando “Phantastes”.
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A descoberta de que o primeiro “despertar” é apenas um sonho é perturbadora, e o segundo “despertar” na biblioteca é ainda mais ambíguo.
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A incerteza do final não é acidental, mas resultado de revisões cuidadosas por parte de MacDonald, que queria que o leitor fosse deixado em estado de incerteza.
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Se os eventos do outro mundo são uma alegoria interna, então “sonhar” na casa da morte significa estar mais acordado, e o retorno de Vane é para o mundo dos livros, onde a jornada de autoexploração continua.
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Vane não retorna ao espelho do sótão (símbolo da autocontemplação), mas à biblioteca (símbolo do aprendizado coletivo e da experiência espiritual dos outros).
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Sua tarefa não é habitar um mundo ou outro, mas sim sobrepor-se a ambos e insistir em sua congruência final.
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O misterioso livro na biblioteca representa toda a tradição literária europeia, exigindo uma perspectiva “estereoscópica” para se situar nos mundos material e espiritual.
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A figura ambígua de Lilith, que está na biblioteca, serve para ilustrar a visão de MacDonald sobre a tradição: algo de valor inestimável, mas também potencialmente muito perigoso.
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A tradição, como Lilith, é ambígua: quanto mais valiosa, mais perigosa pode ser.
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A sabedoria do passado pode ser uma libertação ou uma droga, fornecendo uma falsa segurança e um simulacro de valores herdados que são inúteis.
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A visão de MacDonald sobre a tradição não é a de Newman, nem a de Herder, sendo estruturalmente mais hegeliana em sua insistência em antíteses, mas com escolhas morais mais kierkegaardianas.
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A visão de MacDonald sobre a tradição, que insiste tanto no valor da sabedoria do passado quanto em sua inutilidade diante de algo maior, é única para o século XIX, mas encontra paralelos em obras anteriores.