Eco, Umberto

Umberto Eco (1932-2016)

Palestra proferida no Festival de Literatura de Mântua, em setembro de 2000.

A lenda segundo a qual Stálin teria perguntado quantas divisões o Papa possuía é desmentida pelos fatos: existem forças imateriais que não se medem, mas que têm peso — entre elas a tradição literária, rede de textos produzidos pela humanidade para seu próprio deleite e não para fins práticos.

A literatura mantém a língua viva como patrimônio coletivo, pois a língua segue seu próprio caminho, impermeável a decretos políticos ou acadêmicos.

A literatura mantém viva também a língua individual, e os jovens que frequentam as grandes livrarias contemporâneas entram em contato com estilos elaborados aos quais seus pais e avós jamais foram expostos.

A leitura de obras literárias impõe um exercício de fidelidade e respeito ao texto, ainda que dentro de certa liberdade de interpretação.

O texto literário sinaliza com autoridade suprema o que deve ser tomado como relevante e o que não deve servir de ponto de partida para interpretações sem freio.

O universo da literatura oferece um modelo, ainda que fictício, de verdade — e protege contra interpretações delirantes.

Os personagens literários migram: existem como fatos registrados num texto — partitura imutável — e Anna Kariênina se suicida no mesmo sentido em que a Quinta Sinfonia de Beethoven está em dó menor.

Esses personagens existem como habitus cultural, disposição social, e moldaram o comportamento humano a ponto de se tornarem padrões de referência coletiva.

A era do hipertexto eletrônico permite reescrever narrativas existentes ad infinitum, mudando o destino dos personagens — prática que tem precedentes em Mallarmé, nos surrealistas, em Queneau e nas jam sessions do jazz.

A função essencial da literatura reside na lição sobre o destino e a morte: as histórias “já feitas” ensinam que as coisas acontecem de um modo particular, independentemente do que o leitor deseja.