TEMAS TRADICIONAIS EM VICTOR HUGO

Denis Saurat (Hermès) - THÈMES TRADITIONNELS CHEZ VICTOR HUGO

Hugo é o grande vidente da literatura francesa — tradição que não encoraja os videntes —, enquanto Gérard de Nerval era um vidente de muito menor envergadura, embora mais preciso, e acabou por enlouquecer.

Fora da Igreja, o povo francês, dotado de gosto e talento para as visões, se satisfaz num nível bastante baixo por meio de médiuns, feiticeiros e todo o pessoal inferior da magia popular.

As tradições populares estão em geral em estado de decomposição, fornecendo das realidades espirituais formas descosidas e mal refeitas — e Hugo partilha dessa tendência popular à mecanização.

Os verdadeiros mestres percebem as coisas espirituais diretamente, sem depender de uma tradição ou do ensinamento de outro mestre — são as tradições e os ensinamentos que se fundam nos mestres, sempre diminuindo sua visão.

A percepção intuitiva mais elevada de Hugo é a percepção do calor espiritual: “Sinto calor, avanço, é o bem; sinto frio, recuo, é o mal. A afinidade de Deus com minha alma se manifesta por uma inefável carícia obscura quando me aproximo dele… Isso não é observação… nem imaginação… é intuição.” (Post-Scriptum, p. 263.)

A segunda intuição de Hugo é a intuição do valor eterno do eu — sentimento menos claro, embora igualmente forte, mas com ideias mais claras do que as ligadas ao sentimento de Deus.

A terceira intuição de Hugo é a intuição do valor da dúvida e do sofrimento — que são, no fundo, a mesma coisa, desenvolvida pela dúvida no domínio intelectual e pelo sofrimento no domínio sentimental.

O maior esforço da imaginação de Hugo está de acordo com a tradição mais firme: para ele os anjos existem, e existem fisicamente.

A alma humana pode escapar ao corpo no sono ou no êxtase e explorar os astros — herança de uma longa tradição que inclui Paulo e William Blake.

Os três exemplos — os anjos, os demônios não reais e as viagens cósmicas — mostram Hugo bem mais afastado das tradições ocidentais em sua imaginação do que em suas intuições, ligando-se a mitos populares ou concepções eruditas à margem das grandes correntes.

As concepções puramente lógicas da inteligência hugoliana são às vezes ainda menos aceitáveis ao homem culto de hoje — como a reencarnação —, e outras vezes quase banalmente aceitáveis — como a supressão do inferno eterno.

A supressão do inferno eterno por Hugo coincide com um sincronismo notável: ao mesmo momento em que certas seitas dissidentes inglesas, como os Cristadelfos fundados pelo Dr. Thomas por volta de 1850, repudiam também a ideia do inferno eterno.

A posição de Hugo diante da tradição é notável: ele sentiu por si mesmo verdades que os fundadores da tradição cristã sentiram, afastando-se deles apenas o suficiente para provar que sua intuição das mesmas verdades é original.