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Finnegans Wake
FRYE, Northrop. Fables of identity: studies in poetic mythology. New York London: Harcourt Brace Jovanovich, 1963.
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Finnegans Wake pertence à tradição épica, e Joyce encontra em Blake o predecessor mais relevante entre os poetas mitológicos do Romantismo, compartilhando com ele qualidades culturais da classe média do século XIX — moralidade, romantismo, sentimentalismo e fervor retórico — que Joyce amava e apreciava profundamente.
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O mito de Blake deriva principalmente da Bíblia, concebida como mito definitivo que se estende da criação ao apocalipse e do indivíduo ao homem universal, tendo como princípio central o concreto universal — a identidade entre o indivíduo e a classe — expresso na metáfora da distância entre o homem desperto (Jesus) e o homem adormecido (Albion).
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Blake formula: “Quando distantes, aparecem como Um Homem, mas ao se aproximar, aparecem como Multidões de Nações”
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O homem desperto equivale a Deus; o homem adormecido equivale ao homem histórico e biológico
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A Bíblia é revelação imaginativa ou poética — Jesus empregava parábolas, não silogismos
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As igrejas, sendo sociais, fundam-se em versões racionais e legais da revelação, sendo subordinadas à autoridade dos profetas e artistas proféticos
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O “evangelho eterno” de Blake sustenta que “todas as religiões são uma”
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Em Joyce há igualmente a doutrina da primazia da Palavra imaginativa sobre a doutrina, expressa na ruptura com o catolicismo dogmático em favor de uma catolicidade imaginativa, transferindo a estrutura mítica da Igreja da fé para a imaginação criadora.
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Em Retrato do Artista quando Jovem, o artista e o padre — ambos aspectos de Stephen — lutam pela posse da Palavra, e o artista vence
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A ruptura de Joyce com a Igreja Católica não significou adoção de outra crença, mas transferência da estrutura mítica da fé para a imaginação criadora
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Blake concebia suas Profecias, especialmente As Quatro Zoas — subtitulada “Um Sonho de Nove Noites” — como dirigidas pelo artista ao ouvido do Albion adormecido
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O mesmo ponto é expresso em Joyce pelo símbolo da lacraia (earwig)
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O concreto universal — a identidade entre o indivíduo e o homem total — é o princípio organizador do simbolismo em Joyce
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Albion mantém com a Inglaterra e Londres as mesmas conexões que Finnegan mantém com a Irlanda e Dublin, sendo ambos “formas gigantes” cujos corpos formam a paisagem de seus respectivos países, e o sono de Albion representa uma queda no mundo onírico da natureza externa, que se move em ciclos em torno de dois focos: Orc e Urizen.
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Orc representa juventude, energia, rebeldia e vitalidade sexual; Urizen representa idade, prudência, lei e sabedoria mundana
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Orc é o deus moribundo ou João Cevada que morre no auge de seus poderes; Urizen é o deus celeste olímpico ou “Presidente dos Imortais”
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Nas obras tardias de Blake, o termo “Luvah” tende a englobar todo o ciclo Orc-Urizen
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Luvah em Joyce corresponde a HCE, que em suas fases anteriores é o deus moribundo imanente da fertilidade cíclica da natureza, submerso sob o Lough Neagh no norte da Irlanda, assim como o Albion adormecido de Blake é a verdadeira Atlântida submersa sob o Oceano Atlântico.
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O sonhador mais plausível é Finnegan, o inconsciente humano coletivo de Dublin, que, enquanto dorme, se identifica com HCE e, em menor grau, com os demais personagens falantes
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Ao longo do livro, HCE afunda progressivamente sob o esquecimento, o rumor e a calúnia, tornando-se urizênico e associado aos invasores escandinavos, romanos e ingleses que impuseram estruturas de autoridade externa à Irlanda
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O movimento cíclico da natureza se estende à história humana tanto em Blake quanto em Joyce, com Joyce derivando de Vico — e possivelmente de Spengler — uma concepção de ciclo histórico em quatro estágios, enquanto o ciclo de Blake possui quatro estágios paralelos, com Blake enfatizando a alternativa apocalíptica e Joyce a cíclica.
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Os quatro estágios de Joyce são: era do mito, era da metafísica, era do positivismo e era da dissolução
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Os quatro estágios de Blake correspondem ao: nascimento de Orc (o “trovão” de Joyce); aprisionamento de Orc (deslocamento da Palavra para a Igreja, registrado em “O Mocso e as Uvas”); Urizen explorando suas cavernas (positivismo do século XVIII e imperialismo britânico em Joyce); e uma era final de caos
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Em As Quatro Zoas e em Jerusalém, Blake reserva espaços tanto para o apocalipse quanto para a visão do ciclo puro — o fim da era de Lutero retornando ao início da história “em círculo eterno”
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Este retorno corresponde ao fim do décimo sexto capítulo de Joyce, antes do Ricorso: “Camadas, camadas e camadas. Rodadas.”
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A última página de Finnegans Wake descreve a submersão de ALP em seu “velho e medroso pai”, quando o Liffey atinge o mar — evento que precede imediatamente, na estrutura circular, a queda de Finnegan na primeira página
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Esse evento corresponde exatamente ao primeiro evento de As Quatro Zoas — a submersão de Enitharmon no deus do mar Tharmas, seguida imediatamente pela queda de Albion
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A história humana em Blake abrange sete grandes eras subdivididas em vinte e oito “Igrejas”, e em cada era se configura uma polaridade imaginativa entre o artista e o sacerdote — denominados “Diabos” e “Anjos” em O Casamento do Céu e do Inferno — sendo que Joyce reproduz estrutura análoga com sete períodos do sono de HCE e vinte e oito “Maggies”.
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Blake afirma: “sem Contrários não há Progressão”, mas cada grupo inevitavelmente considera o outro demoníaco
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Os sete períodos do sono de HCE são simbolizados pelas sete cores do espectro e por figuras femininas que representam uma infidelidade tênue mas constante a HCE
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As vinte e oito “Maggies” são, na alegoria literal, as colegas de escola de Isabel, filha de HCE
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O conflito permanente da história — o “collideorscape” — opõe Shem, o artista-profeta proscrito, a Shaun, o sacerdote mundano
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Do ponto de vista do leitor, Shaun é versão derivada e distorcida de Shem; do ponto de vista do mundo, a luta dos irmãos é uma “pantomima de Mick e Nick” — Miguel e Satanás — em que Shaun é Miguel e Shem o poder das trevas vencido
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As “Maggies” aderem a este último ponto de vista — assim como as personagens femininas no poema Milton, de Blake, aderem à perspectiva de Satanás como herói
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Em Blake, a luta entre o bem e o mal encobre uma dialética genuína entre a vida eterna e a morte eterna, cujo princípio da morte — Satanás — inclui tanto a morte física quanto os impulsos mortíferos na vida humana, como a “acusação do pecado”, associada aos três acusadores de Sócrates e aos três consoladores de Jó; em Joyce, o sonho de HCE orbita neuroticamente em torno de uma acusação de culpa emanada de um misterioso “sujeito”, associado à serpente do Paraíso e a três figuras masculinas.
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As três figuras masculinas em Joyce são geralmente soldados, às vezes os filhos de Noé ou a humanidade em geral
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Essas figuras se fundem nos difamadores de HCE e se associam a doze “Mórfios” — frequentadores do pub de HCE — cuja função é encorajar e prolongar o estado de sono
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Em Blake, o sono de Albion é igualmente encorajado e prolongado por doze “filhos de Albion”, associados tanto ao zodíaco quanto aos julgamentos por júri
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Em Blake, tudo o que o homem cria é sua “emanação” e existe em relação feminina com ele, aparecendo como “uma Cidade, mas também uma Mulher”, chamada Jerusalém; na queda, Albion abandonou seu poder criador para contemplar sua criação, que se separou e se tornou a natureza feminina externa e sedutora chamada Vala — figura que tem contrapartes em Joyce.
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As figuras de Vala em Joyce incluem, além das “Maggies”, as duas meninas esquivas associadas à queda original de HCE, cujos nomes giram em torno de “Rosa” e “Lírio”
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O simbolismo do vermelho e do branco tem afinidades com o fato de que Vala em Blake é chamada indistintamente de virgem e de prostituta — os dois aspectos sob os quais Vala é nomeada Tirzah e Raab respectivamente
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Tirzah e Raab são associadas às esposas e filhas de John Milton no poema Milton, de Blake
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O paralelo às vezes sugerido entre as quatro Zoas de Blake e os quatro velhos de Joyce não é genuíno, pois as Zoas — Los, Orc, Urizen e Tharmas — são figuras plenamente individualizadas, enquanto os quatro velhos em Joyce funcionam sempre como coro, representando a tradição inorgânica ou a memória consciente.
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Os quatro velhos estão ligados aos quatro evangelistas, aos quatro historiadores da Irlanda e à técnica psicanalítica de limpar a mente da culpa por meio do despertar da memória
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O equivalente mais próximo dos quatro velhos em Blake seriam os quatro filhos principais de Los em sua forma “abstrata”
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O herói das Profecias de Blake é Los — artista, profeta, ferreiro e espírito do tempo —, cuja emanação é Enitharmon, representando o espaço e presidindo o falso mundo diurno do senso comum; em Joyce, conexão análoga entre o tempo e a imaginação e entre o espaço e o racionalismo aparece na relação entre Shem e Shaun, mas não há figura de Los em Finnegans Wake — o espírito do tempo e a fonte do poder criador de Shem é a figura feminina de ALP, correspondente à Enitharmon de Blake.
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O tempo criador — análogo à durée de Henri Bergson — é distinto do tempo do relógio, que é um elemento da queda
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Em Blake, o tempo do relógio é representado pelo Espectro de Urthona, outro princípio que Los precisa subjugar
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Em Joyce, o tempo do relógio aparece na demanda original do “sujeito” por informação sobre as horas, que provoca uma resposta gaguejante e repetitiva de HCE
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Retrato do Artista quando Jovem termina com o apelo de Stephen ao “velho pai, velho artífice” — figura próxima ao Los de Blake, o ferreiro profético que constrói a Concha Mundana —, e Ulysses pode ser lido como uma versão da queda de Ícaro, na qual Stephen, intelectual etéreo, retorna a Dublin e encontra em Bloom um novo tipo de pai, nem espiritual nem físico, mas o Everyman — ao mesmo tempo Israel e Adão —, enquanto a voz final do livro pertence a Marion Bloom, figura feminina que engloba inúmeros amantes e se afunda no movimento cíclico da terra.
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Stephen se aproxima da comunhão com Bloom com certo espanto e repulsa, mas a descida à terra lhe é claramente necessária
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Marion Bloom é uma Penélope que abraça todos os seus pretendentes além do marido, e sua versatilidade sexual equivale à tecelagem de sua teia interminável — a teia sendo também um símbolo de Blake para a sexualidade feminina
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O girar sonolento da terra, absorto em seu próprio movimento cíclico, afirmando sem nunca configurar, é o estado em que Marion afunda, arrastando o livro inteiro consigo
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Blake, ao ler Ulysses, provavelmente teria recuado horrorizado diante do que chamaria de triunfo da “vontade feminina” — a persistência do sono da exterioridade
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Na ficção épica há dois elementos principais — a busca do herói e a forma do mundo do herói —, e a relação entre a busca dialética e o ciclo natural depende das dimensões do herói, configurando um espectro que vai do mito divino (em que todos os símbolos do ano cíclico são absorvidos pela busca) até a visão irônica (em que a busca está contida num ciclo inevitável e perpétuo), passando pela busca romântica e pela busca heroica clássica.
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O mito de Cristo subordina todo o simbolismo cíclico do Natal e da Páscoa à separação da morte e do inferno em relação à ressurreição
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Na visão irônica, tudo o que é feito, por mais heroico que seja, precisa ser refeito mais cedo ou mais tarde
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A busca romântica assume a forma de uma ascensão sacramental para fora da ordem natural, como em Dante e nos romances do Graal
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Na epopeia clássica — como na Odisseia (de Ítaca de volta a Ítaca), na Eneida (de Troia à Nova Troia) e em Paraíso Perdido (da presença de Deus de volta à sua presença) — o ponto de chegada é o ponto de partida renovado e transformado pela busca do herói
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Nos poemas mitológicos do período de Blake — como Prometeu Desacorrentado, de Percy Shelley, Fausto, de Goethe, e Jerusalém, do próprio Blake — a ação épica é normalmente uma busca intelectual com forte tendência de retorno à busca sacramental do romance, mas nos poemas menores do período surgem padrões mais irônicos, como em O Viajante Mental, de Blake, que apresenta um ciclo em que duas personagens — uma masculina e uma feminina — atuam uma sobre a outra em duplo giro, como diria William Butler Yeats.
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Em Percy Shelley, o homem é redimido e a natureza o segue com um enorme renascimento primaveril — a busca prevalece sobre o ciclo
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O Viajante Mental apresenta quatro fases principais: mãe-filho, marido-mulher, pai-filha, e uma quarta fase que Blake chama de espectro e emanação — termos que correspondem aproximadamente ao alastor e ao epipsyche de Shelley
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Nenhuma dessas relações é verdadeira: a “mãe” é uma ama, a “esposa” é meramente “acorrentada” para o deleite do homem, a “filha” é uma criança trocada e a “emanação” não emana, permanecendo elusiva e externa
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A figura masculina representa a humanidade; a figura feminina representa a natureza externa, que a humanidade subjuga parcialmente em ciclos conhecidos como culturas ou civilizações
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O simbolismo dominante é lunar
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A maioria das epopeias e ações épicas do século XX é irônica, e é O Viajante Mental — e não Prometeu Desacorrentado ou Jerusalém — que está mais próximo em forma delas, sendo possível identificar em Marcel Proust, em William Butler Yeats, em T. S. Eliot e em Robert Graves variações do mesmo simbolismo lunar e da mesma visão cíclica que caracteriza o épico irônico moderno.
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Em A Terra Desolada, de T. S. Eliot, há um sermão do fogo e um sermão do trovão com contextos apocalípticos, mas o ciclo natural do rio fluindo até o mar e retornando pelas chuvas da primavera é a forma continente do poema
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Em Robert Graves, o gênio presidindo o ciclo natural é uma figura feminina ambivalente — a deusa branca associada à lua, em parte virgem e em parte prostituta
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Em Blake a figura central é masculina porque a forma continente de seu épico é apocalíptica e dialética, dando prioridade a uma busca espiritual e imaginativa que rompe o ciclo natural; em Joyce a figura central é feminina porque a forma continente é irônica e cíclica — ALP, como a Vala de Blake, rejuvenesce à medida que HCE envelhece —, mas ALP é uma esposa e mãe infinitamente fiel e solícita, sem a qualidade religiosa das figuras da Beatriz e da Virgem Maria de Eliot, e sem a malignidade da femme fatale do Romantismo e de Yeats e Graves.
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ALP é introduzida como avó, mas ao final de Haveth Childers Everywhere tornou-se filial
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Como Ísis, ALP recolhe pacientemente os fragmentos de seu marido desordenado; como Solveig, espera pacientemente que ele conclua suas errâncias e retorne
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ALP percorre seu ciclo natural e não realiza nenhuma busca por conta própria, mas é claramente o tipo de ser que torna uma busca possível
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O herói que realiza a busca em Finnegans Wake não é Shem, nem HCE, nem Shaun, nem mesmo Finnegan — que nunca desperta —, mas o próprio leitor, que, na medida em que domina o livro dos Fins Duplamente Unidos, pode contemplar sua rotação de cima e ver sua forma total como algo mais que rotação.
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O sonhador, após estabelecer contato com o vasto império do conhecimento inconsciente, acorda esquecendo o sonho — como Nabucodonosor —, deixando ao “leitor ideal sofrendo de insônia ideal”, como Joyce o chama, a tarefa de reforjar os elos partidos entre o mito e a consciência
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