Virgílio
Ora, lege, lege, lege, relege, labora et invenies. Este antigo preceito dos alquimistas não se aplica apenas à descoberta da Pedra Filosofal; é igualmente útil segui-lo quando se busca, por meio de uma exegese total — que é uma verdadeira ascese —, compreender o “segredo do Rei”, ou seja, o pensamento profundo de um Artista. Nós, por nossa vez, “lemos” e “re-lemos” a Eneida, “oramos” e “trabalhamos”, tentando nos apagar diante desse Mestre da Sabedoria que foi Virgílio, e diante desse imenso céu da Tradição onde ele tem seu lugar marcado. E ficamos maravilhados com as riquezas secretas encerradas na história de Enéias, com os ensinamentos oferecidos sob seus véus simbólicos, com esses conhecimentos incontáveis (Totus quidem Vergilius scientia plenus est, afirmava com razão Servius) sutilmente dispostos para um único fim.
Mas qual é exatamente esse fim? Com que objetivo Virgílio compôs seu poema-maestro? Alguns poderão achar a pergunta ociosa, ou a resposta relativamente simples. Na verdade, quando corretamente formulada, essa questão nos leva não apenas ao “atelier do artista”, mas ao mais íntimo de seu coração, e a resposta, em sua complexidade e unidade, só pode vir dessa leitura de tipo “alquímico” anteriormente indicada. Como pretendemos demonstrar, a intenção fundamental de Virgílio foi transformar sua época ao mesmo tempo em que a transcendia; e a função da Eneida não se limita a uma iniciação para os romanos: sua revelação tem alcance universal e tocará, em todos os lugares e em todos os tempos, todo homem que souber compreendê-la com o rigor da Inteligência e o olhar do Coração.
