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Bem-Mal

FRYE, Northrop. Fearful symmetry: a study of William Blake. Princeton, N.J: Princeton Univ. Press, 1990.

  • As ideias éticas e políticas de Blake fundamentam-se em uma teoria do conhecimento que rejeita a neutralidade entre a imaginação e a memória.
    • Impossibilidade de o ser humano viver completamente no mundo dos sentidos sem ordenar as impressões mentais.
    • Necessidade de escolha absoluta entre a via da imaginação e a via da memória.
    • Alinhamento da visão de eternidade com o Juízo Final, caracterizado pela separação definitiva entre homens imaginativos e homens tolerantes ou omissos.
    • Dever do homem imaginativo em forçar decisões e precipitar a separação espiritual.
  • O desenvolvimento da imaginação representa o próprio incremento da vida, enquanto a restrição imaginativa constitui um impulso em direção à morte.
    • Definição do mal como algo essencialmente negativo, baseado na autocontenção ou na contenção alheia.
    • Inexistência de um ato intrinsecamente mau, surgindo o mal apenas quando a atividade é pervertida na frustração de outra ação.
    • Mas, conforme compreendo o Vício, ele é um Negativo… O acidente é a omissão do ato em si mesmo e o impedimento do ato em outro; isto é o Vício, mas todo Ato é Virtude. Impedir outro não é um ato; é o contrário; é uma restrição à ação tanto em nós mesmos quanto na pessoa impedida, pois aquele que impede outro omite seu próprio dever ao mesmo tempo. Assassinato é Impedir Outro. Roubo é Impedir Outro. Difamação, Subversão, Burla e tudo o que é Negativo é Vício.
  • O ciúme e a ociosidade imaginativa substituem as noções teológicas tradicionais de vício, atuando como a origem de todas as manifestações destrutivas da alma.
    • Proximidade do conceito de mal negativo com termos como acédia medieval, melancolia elisabetana e o tédio de Baudelaire.
    • Uso do termo ciúme por Blake para designar a lassidão espiritual decorrente do afastamento do mundo perceptível.
    • Equivalência entre o assassinato e o suicídio como expressões do mesmo impulso de morte e restrição da vida.
    • Mais vale assassinar um bebê no berço do que nutrir desejos não agidos.
    • Identificação do impulso de morte em atos cotidianos como o tormento, a imposição do medo e a exigência de obediência cega.
    • Insuficiência do autointeresse para explicar vícios extremos e manias obsessivas.
    • Aqueles que dizem que os homens são liderados pelo interesse são patifes. Um caráter patife frequentemente dirá: de que interesse me é fazer isso ou aquilo? Eu respondo: de nenhum, mas o contrário, como você bem sabe. É por malícia e inveja que você fez isso; portanto, estou atento a você, porque sei que você age, não por interesse, mas por malícia, até mesmo para a sua destruição.
  • A imaginação pervertida opera de forma analítica e dissecante, gerando visões hediondas e uma atração paralisante pelo mistério e pelo desconhecido.
    • Associação entre a crueldade e a curiosidade maliciosa, exemplificada pelo paralelo entre Nero e o estudante que arranca asas de uma borboleta.
    • Definição do medo como uma atração fascinada pelo desconhecido, que paralisa o raciocinador reflexivo na mistificação.
    • Rejeição histórica e social sofrida por figuras exploradoras do mundo espiritual e profetas, comparados a Colombo e Marco Polo.
  • A divisão da conduta humana entre a autocontenção e a contenção alheia origina os vícios complementares do medo e da crueldade.
    • Equivalência, sob a perspectiva da imaginação, entre o isolamento internalista e o atomismo materialista derivados da memória.
    • Paralelo com a religião, que produz tanto o contemplativo inerte quanto o antinomista.
    • Interdependência entre crueldade e medo, estabelecendo que todos os cruéis são amedrontados e todos os temerosos são cruéis.
  • A tirania política e o domínio das massas constituem projeções da passividade e da pusilanimidade compartilhadas entre opressores e vítimas.
    • Relação social e política estruturada na dinâmica passiva entre parasitas e hospedeiros ao longo da história.
    • Caracterização do tirano como um indivíduo isolado e inescrutável, cujo estado mental reflete a solidão espiritual de suas próprias vítimas.
    • Alusão a Bacon quanto à inescrutabilidade da mente do rei como tema predileto.
    • Confinamento da razão reflexiva em uma solidão sombria, onde a atividade só é concebida como impedimento e restrição.
  • O verdadeiro autodesenvolvimento exige a expansão para fora e a integração com uma unidade imaginativa superior, opondo-se ao isolamento egocêntrico.
    • Paradoxo evangélico ensinado por Jesus sobre ganhar a vida ao perdê-la.
    • Oposição absoluta entre o eu que cresce e vive e o eu egocêntrico que apodrece e definha.
    • O homem é um ser duplo, uma parte capaz do mal e a outra capaz do bem; aquilo que é capaz do bem não é também capaz do mal, mas aquilo que é capaz do mal é também capaz do bem.
  • O estado de natureza e a absorção egocêntrica do homem decaído configuram o si-mesmo, invalidando as justificativas naturais para a tirania política.
    • Aceitação modificada da doutrina do pecado original, rejeitando a ideia de um ser humano simples e natural.
    • Crítica às apologias da tirania baseadas em analogias com o reino animal, como a alcateia ou a colmeia.
    • Identificação do tirano e da vítima no estado de absorção animal denominado si-mesmo, termo que substitui os conceitos de memória e reflexão.
  • O homem natural, governado pelo princípio da morte e pelo isolamento do ego, busca constantemente uma forma indolor de autodestruição.
    • Destruição inevitável do homem natural no mundo físico devido à submissão ao tempo e ao espaço.
    • Atributos do ego enfraquecido: irritabilidade, crueldade, ciúme, vaidade e fixação em trivialidades.
    • Busca do ego, comparado a Cleópatra, por uma modalidade indolor de suicídio através do domínio sobre os outros.
  • A cura para o pecado original do si-mesmo reside na visão revelada de que o mundo natural não é a realidade última.
    • Inexistência do mal necessário a longo prazo.
    • Redefinição de misericórdia, piedade, paz e amor como atributos do homem não decaído, e não meros paliativos contra a crueldade, a guerra e o ciúme.
    • Necessidade de aniquilação do si-mesmo e da aparência do mundo físico para a manifestação do verdadeiro eu purificado.
  • O homem dotado de imaginação plena atua como um visionário cuja percepção gera a arte e cuja atividade se confunde com a profecia.
    • Inclusão de pessoas honestas e benevolentes no lado correto da existência espiritual.
    • Transformação da fé pela qual os justos vivem em uma visão imaginativa total.
    • Identidade entre percepção artística e profecia como atos práticos.
  • O profeta define-se como um vidente com percepção aguçada e perspectiva clara, e não como um adivinho de um futuro inevitável ou um ditador arbitrário.
    • Rejeição da ideia de profecia baseada nas noções contraditórias de mistério e necessidade temporal ou espacial.
    • Capacidade da imaginação em enxergar através dos objetos e das hipocrisias sociais para vislumbrar um mundo superior.
    • Profetas, no sentido moderno da palavra, nunca existiram. Jonas não foi profeta no sentido moderno, pois sua profecia de Nínive falhou. Todo homem honesto é um Profeta; ele emite sua opinião tanto sobre assuntos privados quanto públicos. Assim: Se você continuar de tal modo, o resultado será tal modo. Ele nunca diz: tal coisa acontecerá, faça você o que fizer. Um Profeta é um Vidente, não um Ditador Arbitrário.

Política e Religião

  • A tirania política exige o suporte de um sacerdócio e de uma religião estatal baseada no mistério invisível e na obediência inquestionável.
    • Manutenção do tirano por meio da exploração dos medos das vítimas e do senso de um poder misterioso oculto.
    • Perigo da religião convencional estabelecida, superior ao efeito transitório de um ópio social.
    • Insuficiência da mera derrubada do poder temporal, que tende a se reinstalar sob novas formas governamentais.
    • Citação de Paulo sobre a luta não ser contra carne e sangue, mas contra principados, poderes e governantes das trevas.
  • A falsa religião caracteriza-se por postular um Deus externo e misterioso e por pregar a submissão para a manutenção do status quo social.
    • Identificação da religião estatal como a fonte de toda crueldade, manifesta historicamente na adoração do César divinizado.
    • Crítica de Blake aos ensaios de Bacon, denunciados como apologias palacianas disfarçadas de filosofia cristã.
    • Todo mundo sabe que isso é epicurismo e libertinismo, e ainda assim todo mundo diz que é filosofia cristã. Como isso é possível? Todo mundo deve ser um mentiroso e enganador? Não! Todo mundo não faz isso; mas os mercenários de Reis e Cortes, que se fizeram de todo mundo, e conscientemente propagam a falsidade.
    • Dever da imaginação em dissipar a confusão neutra, forçando o erro a se revelar como negação da verdade.
    • Percepção do deísmo como uma consolidação do erro que antecipa sua rejeição final.
  • A separação entre existência e percepção transformou o animismo primitivo em crenças em divindades invisíveis, egoístas e opressivas.
    • Sobrevivência do eco do mundo não decaído no animismo primitivo, nas ninfas, sátiros e faunos da mitologia clássica.
    • Separação do objeto natural de seu espírito ou gênio, gerando a crença em deuses externos contrários aos interesses humanos.
    • Referência ao texto de Ouro e Ferro sobre os poetas antigos que animavam objetos sensíveis com deuses ou gênios.
    • Oposição em poemas posteriores entre as fadas da crença original e os deuses pagãos tiranos.
    • Atuação dos deuses mitológicos na supressão de artistas rivais, conforme ilustrado por Ovídio nas histórias de Marsias e Aracne.
  • O Deus do cristianismo ortodoxo constitui a obra-prima da religião estatal, impondo o mistério, o ritual estático e a resignação diante do sofrimento.
    • Atribuição de todas as calamidades e misérias à vontade divina, exigindo resignação absoluta dos indivíduos.
    • Subordinação das visões de artistas e profetas a um ritual invariável e a dogmas imóveis confiados a uma classe sacerdotal iniciada.
    • Concepção ortodoxa de inferno como tormento temporal infinito e de imortalidade como recompensa passiva na vida pós-morte.
  • A ortodoxia religiosa fundamenta-se no medo e no culto a uma projeção diabólica que atua na defesa dos privilégios institucionais e políticos.
    • Crescimento do horror religioso à medida que a mente reflete sobre as ações de um Deus misterioso.
    • Identificação do culto a um Deus que tortura eternamente como adoração ao diabo ou aos piores elementos humanos.
    • Compromisso irrevogável das igrejas estabelecidas com a defesa de suas próprias estruturas de poder.
    • Deus é apenas uma Alegoria de Reis e nada mais… Deus é o Fantasma do Sacerdote e do Rei, que existem, ao passo que Deus não existe exceto a partir dos eflúvios deles.
  • O culto histórico ao Deus sanguinário, denominado Velho Nobodaddy por Blake, exige o sacrifício humano e a guerra como demonstrações de reverência.
    • Evolução do sacrifício humano no Velho Testamento para o sacrifício de animais sob a pressão dos profetas.
    • Persistência do impulso de sacrifício humano na eclosão periódica de guerras santas e cruzadas.
    • Sátira poética sobre o Velho Nobodaddy aplaudindo a violência e a repressão clerical contra a Revolução Francesa.
  • A transformação de Deus em uma força impessoal de fatalidade ou necessidade resulta na exaltação da rotina passiva e na criminalização da energia livre.
    • Recaída de Nobodaddy no destino ou na necessidade mecânica, assemelhando-se à vontade imanente.
    • Erro da ortodoxia ao situar a salvação fora do âmbito humano, buscando-a na natureza espacial e na docilidade acrítica.
    • Associação da vida rotineira e passiva ao bem, enquanto a independência, a liberdade e a energia são vinculadas ao mal.
  • A moralidade legalista e generalizadora atua como uma força de opressão que nega a singularidade da vida e promove o culto à mediocridade.
    • Inclusão da predestinação entre as formas de fatalismo que anulam a agência humana.
    • Correspondência entre a imparcialidade da lei e a igualdade da apatia filosófica lockeana.
    • Uma Lei para o Leão e para o Boi é Opressão.
    • Estímulo à transgressão pelas leis penais baseadas na preservação do interesse geral por meio da compulsão.
  • As virtudes clássicas e a humildade ortodoxa funcionam como mecanismos de autolimitação e dúvida que paralisam a percepção e o intelecto.
    • Crítica à ética grega da moderação, concebida para evitar a alteração das condições sociais estabelecidas.
    • Aforismos de Blake contra a máxima grega do nada em excesso, definindo a prudência como incapacidade e associando as quatro virtudes clássicas ao trono de Satã.
    • Associação da modéstia e da humildade cristãs ao medo de inflamar a ira de um Deus punitivo, assemelhado a Setebos.
    • Paralelo com o cientiste experimental que reserva o julgamento e se restringe a uma realidade empírica limitada.
    • Humildade é apenas dúvida, e apaga o Sol e a Lua.
  • A redução da moralidade à obediência rotineira resulta em uma perfeição negativa que anula a atividade viva e estabelece uma ética de escravos.
    • Equivalência entre o bem e a vida, e entre o mal e a morte, rejeitando a automutilação moral da virtude convencional.
    • Submissão do homem moralmente bom a um Deus externo que se revela como a sombra de César e da timidez popular.
    • Identificação da árvore do conhecimento do bem e do mal com a árvore da morte no Éden.
    • Por isso ver-se-á que não considero nem o Justo nem o Ímpio como estando em um Estado Supremo, mas que cada um deles são Estados do Sono em que a Alma pode cair em seus sonhos mortais de Bem e Mal quando deixa o Paraíso seguindo a Serpente… Os Combates do Bem e do Mal são Comer da Árvore do Conhecimento. Os Combates da Verdade e do Erro são Comer da Árvore da Vida.
  • A verdadeira regeneração espiritual depende da unidade entre as imaginações divina e humana, rejeitando a acusação de pecado que paralisa a mente.
    • Crítica à antítese ortodoxa entre uma vontade divina exclusivamente boa e uma vontade humana exclusivamente má.
    • Se o homem é considerado apenas mau e Deus apenas bom, como então se efetua a regeneração que transforma o mal em bem?
    • Definição de Satã como o acusador que induz à insuficiência e ao desespero, promovendo o estado de acusação de pecado através de seus agentes sociais.
  • Satã assume a forma do deísmo e do racionalismo científico na era moderna, utilizando o ridículo e as leis naturais para perseguir a imaginação.
    • Caracterização de Satã como um indivíduo hipócrita e moralista, focado na acusação do erro alheio.
    • Não encontramos em lugar algum que Satã seja Acusado de Sin; ele é apenas acusado de Incredulidade e, por meio disso, atrai o Homem para o Pecado para que possa acusá-lo.
    • Transformação de Satã em deísta que aponta a escassez de evidências para qualquer realidade fora das leis naturais.
  • As revoluções políticas inspiradas pelo materialismo deísta falham em libertar o espírito humano, substituindo apenas uma tirania por outra.
    • Simpatia inicial de Blake pelas revoluções americana e francesa como sublevações imaginativas.
    • Respeito de Blake pela honestidade intelectual de Tom Paine, apesar da repressão deste em relação à poesia e ao campo da imaginação.
    • Crítica à visão materialista que localiza a realidade na solidez da rocha e reduz o espírito vital a um fantasma.
    • Censura à tese de Tom Paine de que Deus se revela na mecânica e de que um moinho é o microcosmo do universo.
    • Oscilação da Revolução Francesa entre os Bourbon e Bonaparte devido à mentalidade niveladora da liberdade.
    • Declínio da democracia materialista em um rebanho ovino de mediocridades satisfeitas.
    • Mas desde a Revolução Francesa os ingleses são todos intermensuráveis uns pelos outros: certamente um feliz estado de acordo, no qual eu, pelo menos, não concordo.
  • A aceitação passiva do mundo físico resulta na decadência social e na barbárie, tornando a libertação da imaginação o problema central da liberdade.
    • Contraste entre a sociedade livre idealizada pelo deísmo e aquela proposta pela visão imaginativa de Blake.
    • Fracasso histórico em atingir a serenidade utópica por meio da mera acomodação ao mundo físico.
    • Degeneração da religião natural em uma sociedade decadente governada pela histeria de massa e pela guerra de extermínio, simbolizada como Druidismo em Jerusalém.
    • Centralidade da liberação da imaginação no problema da liberdade social e política, estabelecendo o papel do grande homem como artista profético, em oposição ao herói de Carlyle ou ao Super-homem de Nietzsche.
    • Necessidade social de permitir que o profeta critique os defeitos coletivos e que o homem honesto se expresse livremente.

Guerra Mental e Perdão

  • O verdadeiro conflito social configura-se como uma guerra intelectual entre visionários radicais e defensores conservadores da tirania.
    • Identificação dos defensores da tirania como renegados visionários, incluindo poetas como Virgílio, filósofos do experimentalismo, pintores generalistas como Ticiano e Rubens, e apologistas teológicos.
    • Classificação dos guardiões da moralidade social como Anjos, e dos contestadores da estrutura social como Demônios.
    • Utilidade mútua de Anjos e Demônios no esclarecimento da confusão e na expulsão do erro como parte do desígnio divino.
    • Ser um Erro e ser Expulso é parte do desígnio de Deus.
    • Postulação da contrariedade como a única via de progressão espiritual.
    • Fúria destrutiva de Blake contra os artistas identificados como Anjos, comparada à conduta de um Frei João na guerra intelectual.
    • Caracterização do estado de Éden como uma Valhala eterna de conflitos travados com arcos de ouro ardente e flechas de desejo.
  • A mentalidade retributiva da moralidade comum perpetua a inércia social, tornando a punição uma reação estéril e um desperdício de tempo.
    • Aprisionamento dos neutros na moralidade da vingança, que interpreta todo ato vigoroso como um movimento a ser neutralizado.
    • Ineficácia histórica de guerras, códigos penais e perseguições religiosas na produção de atos positivos no mundo decaído.
  • O perdão dos pecados exige a violenta denúncia visionária da condição pecaminosa, seguida pela separação entre o indivíduo e o erro cometido.
    • Definição do perdão dos pecados como o antídoto contra a acusação de pecado que envenena a imaginação.
    • Exigência de uma condenação prévia e severidade de julgamento por parte do visionário contra manifestações de impedimento.
    • Crítica à tolerância preguiçosa dos indivíduos comuns, que se transforma em clamor por destruição quando estes são tomados pelo medo.
    • Oposição entre o ressentimento do visionário e a retribuição punitiva da sociedade que fortalece a mediocridade.
    • Foco da visão profética na encarnação de um Messias, enquanto a visão medíocre busca a punição de um bode expiatório.
    • No Inferno tudo é Autojustificação; não existe tal coisa lá como o Perdão do Pecado; aquele que Perdoa o Pecado é Crucificado como um Cúmplice de Criminosos, e aquele que realiza Obras de Misericórdia sob Qualquer forma é punido e, se possível, destruído, não por inveja ou Ódio ou Malícia, mas por meio da Autojustificação que pensa que presta serviço a Deus, cujo Deus é Satã.
  • O visionário é movido pelas emoções superiores da ira e da piedade, enfrentando a responsabilidade espiritual de não enterrar seu talento.
    • Atribuição das emoções de ira e piedade às figuras de Rintrah e Palamabron, respectivamente.
    • Incapacidade do Anjo em experimentar a indignação honesta que emana de Deus, apelando antes para a desculpa da necessidade.
    • Posse da ciência da piedade por Satã, mas não da ciência da ira.
    • Sentimento de infâmia e tormento experimentado pelo profeta diante do medo de abandonar sua vocação espiritual.
    • Mas se tememos cumprir os ditames de nossos Anjos, e trememos diante das Tarefas colocadas diante de nós; se nos recusamos a realizar Atos Espirituais por causa de Medos Naturais ou Desejos Naturais! Quem poderá descrever os dantescos tormentos de tal estado! — Lembro-me bem demais das Ameaças que ouvi! — Se você, que é organizado pela Divina Providência para a comunhão espiritual, Recusar, e enterrar seu Talento na Terra, mesmo que lhe falte o Pão Natural, a Tristeza e o Desespero o perseguirão pela vida, e após a morte a vergonha e a confusão de face para a eternidade…
    • Desinteresse do visionário em criar uma arte inferior para mentes fracas, mantendo a perfeição da forma e aceitando a pobreza material para preservar sua mensagem social.
  • Os processos criativos do Éden expandem-se na guerra e na caça mental, superando as visões celestiais passivas de proteção e repouso.
    • Perversão da guerra e da caça criativas em modalidades de assassinato no mundo decaído.
    • Expansão da alegria criativa na imagem do Deus que retorce os tendões do coração do tigre, ou no cientista visionário encarnado como o Titã Orc que perfura os planetas elementais.
    • Crítica às descrições bíblicas, miltonianas e de Bunyan que retratam o Paraíso em termos de relaxamento, proteção e ausência de risco.
    • Rejeição dos conquistadores e tiranos terrestres como falsos heróis baseados na dominação e no desejo de poder.
    • Insuficiência da filosofia de Nietzsche devido à ausência de alegria criativa, situando-o no lado dos Anjos.

Amor e a Vontade Feminina

  • O amor no homem natural degenera em ciúme e possessividade espiritual, transformando o objeto amado em uma propriedade isolada.
    • Paralelo entre o raciocinador abstrato que arrasta a sombra da árvore para sua caverna mental e a atitude do homem natural em relação à mulher.
    • Representação dessas atitudes irreconciliáveis nos poemas A Terroa e o Seixo.
    • Identificação do Espectro com o si-mesmo e com as ideias abstratas.
    • Definição da Emanação como a forma total das coisas que o homem ama e cria, unida a ele nos estados imaginativos e exteriorizada como tormento nos estados decaídos.
    • Condenação da união matrimonial vista como armadilha legal e eclesiástica, bem como do amor familiar brando que atua como baluarte do conservadorismo social.
    • Rejeição do amor educativo platônico que visa reter o jovem na unidade familiar da cidade-estado.
  • A repressão e a vergonha impostas à sexualidade geram o puritanismo e a frustração autoerótica, distorcendo as necessidades imaginativas do corpo.
    • Atuação da guarda moral para direcionar o desejo sexual em direção à natureza animal e à excreção, afastando-o da humanidade plena.
    • Identificação da prudência e da luxúria como manifestações idênticas do ciúme do si-mesmo.
    • Sátira sobre a frustração de uma solteirona morta que lamenta a virgindade inútil.
    • Uma velha solteirona cedo — antes que eu conhecesse / Algo senão o amor que em mim cresceu; / E agora estou coberta por completo / E gostaria de ter sido uma puta.
    • Crítica à negação dos desejos carnais em nome de uma alma pura separada do corpo.
    • Simbolismo do girassol como a vida vegetal enraizada no mundo físico que anseia pela libertação.
    • Denúncia da hipocrisia social na acusação de pecado dirigida à prostituta, cuja condição resulta da própria profanação coletiva do amor.
  • Os códigos de cortejo e a adoração da vontade feminina na natureza reproduzem a separação alienante entre o homem e o mundo objetivo.
    • Interpretação do aparato erótico feminino — esquiva, modéstia e ciúme — como símbolos da relação entre o observador e a natureza feminina receptiva.
    • Desaparecimento da dependência da natureza materna no estado perfeitamente imaginativo do Éden.
    • Identificação do início da queda humana com o surgimento de um mundo objetivo independente e com a dependência em relação à vontade feminina.
    • Rejeição do culto religioso ao princípio maternal e à Madona no cristianismo oficial, considerados corrupções do ensinamento de Jesus e formas de adoração ao útero.
    • Crítica aos códigos petrarquistas e cavalheirescos de adoração à amante, associados à beleza traiçoeira de uma natureza separada que conduz à melancolia e à loucura.
    • Centralidade da Madona com o Menino e da corte do amor como os grandes símbolos da vontade feminina na iconografia de Blake.

Economia e Regeneração

  • A economia monetária atua como um mecanismo de exploração e assassinato parcial que restringe as necessidades imaginativas das famílias pobres.
    • Estruturação do dinheiro nas formas polares de riqueza e pobreza dentro da sociedade decaída.
    • Definição do dinheiro por Blake como o sangue vital das famílias pobres.
    • Deus fez o Homem feliz e Rico, mas o Sutil tornou o inocente, Pobre.
    • Ineficácia de uma redistribuição igualitária da moeda para alterar seu status de raiz de todo o mal, dado que o dinheiro pressupõe um nível morto de necessidades biológicas básicas.
    • Degeneração do prazer social em luxo e afetação, relegando a arte à categoria de item não essencial.
  • A guerra constitui o colapso da economia monetária em assassinato total, enriquecendo os especuladores à custa do sacrifício dos combatentes.
    • O heroísmo é um avarento.
    • Explicação de que as ações corajosas no campo de batalha revertem em benefício dos acumuladores de riqueza.
    • As Roupas do Príncipe e os Farrapos do Mendigo / São Cogumelos nos Sacos do Avarento.
    • Incompatibilidade frequente entre a integridade do visionário e a prosperidade material exigida pela sociedade.
    • Rejeição da tese de que a pobreza é necessária para forjar o gênio artístico.
    • A pobreza é a vara do tolo.
    • Afirmação de que um artista não pode ser dissipado a menos que possua algo para dissipar.
  • A alucinação mental difere da visão imaginativa pela perda do controle criativo e pela submissão a associações puramente individuais e caóticas.
    • Invalidade da distinção convencional entre interior irreal e exterior real no exame de fenômenos como os fantasmas.
    • Caráter universal e comunicável da percepção imaginativa e divina do gênio normal.
    • Contraste entre a dupla visão de Blake diante de um cardo e a perda de controle de Dom Quixote ao enxergar um gigante em um moinho de vento.
    • Pois dupla é a visão que meus Olhos veem, / E uma dupla visão está sempre comigo. / Com meu Olho interno é um Velho cinzento; / Com meu externo, um Cardo cruzando meu caminho.
  • A mente doente é assombrada de forma passiva por potências externas monstruosas, enquanto a imaginação submete os espíritos à atividade artística.
    • Características das visões lunáticas: dependência de associações egocêntricas, aparecimento caótico contra a vontade e manifestação de monstros baseados nos medos do si-mesmo.
    • Postura de Blake em face dos espíritos, tratados como modelos não pagos obrigados a posar para seus esboços até o término do trabalho.
    • Correspondência estrutural na qual o si-mesmo parodia a imaginação: a luta física parodia a guerra mental; a esposa ciumenta parodia a emanação; o dinheiro parodia a comunidade; e o pesadelo parodia a visão.
    • Culminação desse padrão interpretativo na paródia de Cristo realizada pelo Anticristo.

O Evangelho Eterno

  • Jesus encarna a unidade perfeita entre Deus e o homem por meio de uma conduta baseada no impulso imaginativo e no perdão universal dos pecados.
    • Rejeição da perfeição negativa baseada na ausência de pecado ou no cumprimento de regras morais.
    • Jesus era toda virtude, e agia por impulso, não por regras.
    • Centralidade do evangelho de Jesus na concessão ativa do perdão das ofensas para a expansão da vida.
  • A atuação de Jesus caracterizou-se pela destruição revolucionária dos mandamentos morais, dos rituais vazios e dos laços da família natural.
    • Confrontação com o Deus ciumento do trovão cultuado pelos judeus e com o código cerimonial dos fariseus.
    • Despreço pelo sábado farisaico, pelas formalidades mágicas do ritual e pela paralisia da atividade espiritual.
    • Silenciamento dos doutores da lei, dos fariseus devotos e dos saduceus céticos por meio da exposição de suas ignorâncias.
    • Ruptura com a estrutura da família natural como pré-requisito para a imaginação total.
    • Citação de Jesus para sua mãe: Mulher, o que tenho eu contigo?
    • Recusa em condenar a prostituta, expondo a autojustificação dos julgadores como um mal superior ao pecado dela.
    • Provocação deliberada contra os custódios das virtudes sociais, resultando em sua execução justificada sob a ótica dos interesses estabelecidos.
  • O ensinamento de Jesus rejeita a contabilidade moral e exige a perfeição imediata através de uma existência espontânea e sem prudência.
    • Acolhimento de Jesus por publicanos, pecadores, leprosos, párias e crianças.
    • Localização do Reino dos Céus no interior dos indivíduos, e não em uma transcendência espacial.
    • Exigência de propostas práticas impraticáveis, como a exaltação da vida espontânea dos lírios do campo em oposição ao planejamento cuidadoso.
    • Subversão da lógica do merecimento na parábola dos trabalhadores da vinha que recebem a mesma recompensa em tempos diferentes.
    • Preferência pelos conselhos de prudência de Marco Aurélio ou César em detrimento dos paradoxos radicais dos Evangelhos.
  • A lei divina exposta por Jesus foca no crescimento espiritual e no aproveitamento dos talentos, definindo o céu e o inferno como estados mentais contemporâneos.
    • Centralidade do ensinamento na destruição do mundo natural e na permanência dos estados de vida e morte, fertilidade e esterilidade.
    • Louvor aos que multiplicam os talentos divinos e condenação aos que os ocultam por temor.
    • Renúncia aos atributos de um Messias conquistador militar, recusando a retribuição e o combate à tirania por meio da própria tirania.
    • Definição do inferno como o confinamento do si-mesmo na posse de desejos corporais fatigantes.
  • A fé e os milagres evangélicos constituem atos de imaginação mútua que capacitam o indivíduo a romper suas próprias prisões físicas.
    • Identificação da fé dos justos com a consumação da visão imaginativa que opera após a morte e remove montanhas na pintura da paisagem.
    • Definição do milagre real como um esforço criativo que encontra uma resposta receptiva equivalente no paciente, refutando a ideia de um comando arbitrário e mágico.
    • Jesus não podia realizar milagres onde a incredulidade impedia, portanto devemos concluir que o homem que sustenta que os milagres cessaram retira de si mesmo o poder de jamais testemunhar um. A maneira de um milagre ser realizado é em tempos modernos considerada como um comando arbitrário do agente sobre o paciente, mas isso é uma impossibilidade, não um milagre, nem Jesus jamais fez tal milagre…
  • Jesus expressava sua sabedoria por meio de unidades artísticas concretas, como parábolas e aforismos, que escapam às generalizações abstratas da razão.
    • Recusa de Jesus em utilizar abstrações conceituais que se convertem em chavões morais.
    • Exigência de uma suspensão voluntária da descrença para a compreensão das narrativas concretas.
    • Crítica à interpretação moralista da bem-aventurança dos mansos, reduzida ao enriquecimento por meio da acomodação social.
    • A Visão de Cristo que tu vês / É a Maior Inimiga da minha Visão: … / A tua é amiga de Toda a Humanidade, / A minha fala em parábolas para os Cegos.
  • A verdadeira Igreja Cristã identifica-se exclusivamente com a vida civilizada e com o livre exercício da atividade imaginativa, e não com cerimônias ou teologias.
    • A religião é a Vida Civilizada tal como ela é na Igreja Cristã.
    • Definição da Igreja Cristã como Vida Ativa.
    • Insuficiência das conversões formais para alterar o caráter de um indivíduo patife.
    • … Pelas suas Obras os conhecereis; o Patife que se Converte ao Deismo e o Patife que se Converte ao Cristianismo ainda é um Patife, mas ele próprio não o saberá, embora todo mundo o saiba.
    • Interpretação do Batismo e da Eucaristia como símbolos da rejeição contínua do erro e da recepção de homens sábios na comunidade.
    • Caracterização do Anticristo moral através da prática do ritual externo repetitivo que imita o movimento circular de Nobodaddy.
  • O ingresso no céu depende do cultivo do intelecto e da compreensão, visto que o paraíso abriga as realidades eternas das paixões livres.
    • Rejeição da santidade e da repressão das paixões como passaportes para o ambiente celestial.
    • Identificação do inferno com a repressão exercida por mentes destituídas de intelecto sobre as paixões alheias.
    • Os homens são admitidos no Céu não porque refrearam e governaram suas Paixões ou porque Não têm Paixões, mas porque Cultivaram seus Entendimentos. Os Tesouros do Céu não são Negações da Paixão, mas Realidades do Intelecto, das quais todas as Paixões Emanam sem Freios em sua Glória Eterna. O Tolo não entrará no Céu por mais Santo que seja. A Santidade não é o Preço da Entrada no Céu. Aqueles que são expulsos são Todos Aqueles que, não tendo Paixões próprias porque Não têm Intelecto, Passaram suas vidas Refreando e Governando as de Outras Pessoas pelas Diversas artes da Pobreza e Crueldade de todos os tipos…
    • Uso pejorativo do termo santidade como sinônimo de paralisia mental fundada no mistério e no temor reverente.
    • A Igreja Moderna Crucifica Cristo com a Cabeça para Baixo.
    • Definição dos poderes intelectuais visados pela alegoria artística de Blake como as verdadeiras potências da mente humana.
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