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Poetologia
SIGNORILE, Patricia. Paul Valéry, philosophe de l’art: l’architectonique de sa pensée à la lumière des “Cahiers”. Paris: J. Vrin, 1993.
POETOLOGIA OU PENSAMENTO DO SIGNO?
As intenções arquitetônicas de Valéry conduzem à criação de um modelo do pensar pela integração de conceitos como invariante e analogia.
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Valéry tinha aversão natural aos filósofos e desconfiava da linguagem filosófica, por isso buscou nas matemáticas um modelo exemplar de sistema de expressão preciso.
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A teoria matemática do invariante foi transcrita literariamente por Valéry em paralelo ao conceito de analogia, que é a faculdade de variar e combinar imagens.
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No domínio linguístico, o invariante se transforma em analogia pelo jogo de seu caráter permanente, sendo preciosas as analogias e comparações fundadas na estrutura.
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Platão, na sétima carta, evocou o princípio de analogia, ecoado pela floresta de símbolos de Baudelaire e pelo demônio analogia de Mallarmé.
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A metáfora se condensa em elipse analógica, considerando-se analogias e metáforas como produtos regulares de um estado determinado de ressonâncias e similitudes.
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Em arquitetura, a analogia resulta da harmonia repetitiva de uma forma fundamental em cada subdivisão da obra, tornando-se paradigmática.
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Para Rodin, é a analogia que liga as coisas e lhes atribui suas ordens.
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A razão é uma arte de fazer coincidir pensamento, percepções e lembranças, e o analógico não reside na imitação das formas, mas das leis transpostas.
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Os conceitos de analogia e invariante são ferramentas intelectuais que favorecem a apreensão simultânea das modificações e da edificação do pensamento espontâneo.
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À noção de invariante, associa-se a de autovariância, fenômeno admirável da natureza que acentua a importância fundamental da variação e da mudança de equilíbrio.
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Inspirando-se no modelo da linguística, Valéry elaborou uma dialética sutil entre estruturas fixas e estruturas livres.
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O que se deve tomar das ciências não é uma vã analogia de suas leis físicas com as do espírito, mas seu rigor, sua tensão e sua dificuldade pura.
A TENTAÇÃO DE FORMALIZAR…
A filosofia sofre com o desenvolvimento de explicações sem sanções nem verificações, sendo necessário estabelecer o ideal do gênero.
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A filosofia está como que mortificada pela distância imensa entre seus resultados vagos e os das ciências, que aumentaram terrivelmente as exigências de verificação do espírito.
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Valéry queria colocar suas ideias em formas de noções precisas, rejeitando a terminologia dos filósofos, fazendo delas símbolos e relações, toda uma física matemática com suas equações de condições.
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Ao longo dos cadernos, assiste-se a tentativas de simbolização e síntese dos cinco ou seis problemas precisos aos quais se reduz todo o útil em filosofia.
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A ideia de Valéry foi conceber uma linguagem artificial fundada no real do pensamento, uma linguagem pura, um sistema de signos explicitando todos os modelos de representação e modos de composição.
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Ele teve a intuição da filosofia analítica e da lógica simbólica, e em 1935 confiou ao seu caderno o desejo de que um dia, enfim próximo, a linguagem fosse purificada.
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Ryle ilustra uma tendência conceitual próxima à de Valéry, mostrando que os problemas clássicos repousam sobre dilemas originais por não terem sido corretamente colocados.
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A convergência com Valéry é evidente, pois para ele a filosofia e seus problemas são um problema de palavras ou de questões mal colocadas.
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Segundo Merleau-Ponty, Valéry deu demasiado ao racionalismo, pois por trás desse nominalismo esconde-se uma extrema confiança no saber, acreditando ser possível decompor inteiramente o sentido das palavras.
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Merleau-Ponty concede que a reflexão é primeiro reflexão sobre as palavras, mas constata que Valéry ficou a meio caminho na tomada de consciência do acaso.
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Valéry, como Ryle, interroga os mecanismos intelectuais, e Ryle sugere que o pensamento é uma maneira de agir.
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Austin qualificou de performativas as enunciações que não fundam afirmações verdadeiras ou falsas, mas que fazem algo; para Valéry, dizer é fazer.
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O interesse da filosofia analítica é de ordem metodológica, determinando a existência de enunciados propriamente filosóficos e sua capacidade de suportar uma demonstração análoga à das ciências exatas.
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O vocabulário filosófico se nutre de termos gerais cujo sentido é precisado pelo contexto, mas a observação reintroduz a subjetividade do sujeito.
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A lógica simbólica tirou do princípio de analogia de Pitágoras e do pensamento de Eddington resultados interessantes, mas a ambição do círculo de Viena de substituir a filosofia e a metafísica por uma análise sintática e observações empíricas objetivas terminou em fracasso.
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Carnap reconheceu o impasse no qual a obsessão antimetafísica havia empurrado seu grupo, abrindo uma brecha pela qual o sujeito e a metafísica se reintroduziram triunfantemente.
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Em 1930, Valéry alegrou-se com o progresso da ciência positiva, mas quatorze anos depois falou de crise de confiança, pois não há mais esperança de construir um edifício do conhecimento.
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Valéry mostrou como renunciar à filosofia eternitária sem cair no irracionalismo, não se atendo à alternativa do filósofo que crê alcançar significações puras pela reflexão e tropeça nos mal-entendidos.
O RETORNO À PALAVRA DO RAPSODA
A questão do ser do homem é determinada pela questão do ser, e o homem é o lá que é ele mesmo latência.
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A citação “É preciso que aqueles que investigam bem sobre muitas coisas sejam homens amigos da sabedoria” é incluída.
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Heidegger, em um curso de 1935, afirmou que o lá do homem, para ele e em direção a ele, o entante se mantém e se torna obra.
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Valéry constatou que em matéria de filosofia não há coisas, noções ou verdadeiros invariantes, mas apenas o homem, pois tudo está na linguagem.
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A poesia absoluta busca no extremo dessa egoidade uma espécie de objetividade, antecipando a noção de superioridade do poeta sobre o homem de ciência de que falava Heidegger.
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Deve-se situar a filosofia no domínio da poesia e fazer da filosofia um pensamento poético, pois o poeta não propõe um pensamento, mas um objeto.
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Ponge escreveu que mesmo ao pensamento se deve fazer tomar uma pose de objeto.
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A poesia e a filosofia criam uma coisa, fazendo-a existir ao dotá-la de um caráter incomum; todos os artes têm por comum captar a poesia, que é um estado de espera, ressonância e canto.
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A função do signo não é tematizar ideias filosóficas, mas fazê-las existir diante de nós à maneira das coisas.
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À tentação de formalizar o pensamento e à tendência espontaneamente neopositivista de Valéry responde uma ontalidade corporal.
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A poesia e o pensamento só encontram seus meios de expressão porque uma representação qualquer nunca pertence a um sistema dado.
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A citação “tudo o que é visível e imaginável é por isso mesmo todo outro que uniforme” é incluída, demonstrando que o melhor meio de pintar algo é restituir aquilo em que é multiforme.
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A existência da coisa só se desdobra em uma forma, signo do trabalho acabado, e a técnica é absorvida pela execução.
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Construir um poema que só contenha poesia é impossível, pois se contiver apenas poesia, não é construído e não é poema.
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Nos cadernos, Valéry tenta descrever as operações que transformam dados em objeto solicitando um outro imaginado pelo autor, analisando a obra como porção de ato.
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A forma é relativa ao indivíduo, ao grupo e à história, e toda obra humana decorre da mise en forme.
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Valéry deseja reduzir a filosofia à pesquisa da forma que conviria à expressão ou representação de todas as coisas para um indivíduo dado.
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A verdadeira filosofia, aplicada e verificada, nunca está nos escritos dos filósofos, mas sente-se em todas as obras humanas que não se referem à filosofia.
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A tomada de posição valeriana abre via a uma filosofia da reflexão e da ação, emergindo do problema da interpretação e abrindo uma janela para a semelologia do discurso.
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A filosofia é pesquisa e eterno relançamento; uma única coisa importa, aquela que se furta infinitamente à análise, motivo pelo qual se deve fazer análises cada vez mais finas.
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Questiona-se por que o filósofo escreve: para dizer seu contato com o ser, mas como isso é silêncio, ele recomeça.
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A filosofia é a obstinação do pensamento em retornar, em um espaço de silêncio ao qual responde a beleza da obra, num paradoxo irreversível de que tudo está dito e nada é compreendido.
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Valéry não escreve suas opiniões, mas suas formações, interrogando-se sobre sua finalidade.
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Ele se afasta momentaneamente da “surrealidade poética” de Saint-John Perse, para quem o poeta recolhe o metafísico quando os filósofos desertam do limiar da metafísica.
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Sartre afirma que o estilo de um autor está diretamente ligado a uma concepção do mundo, e a construção da forma precede a criação, sendo ela mesma uma obra.
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Souriau também foi tentado por essa mesma pesquisa, entendendo por “obra filosófica” não a execução verbal do pensamento, mas o acabamento interno, a edificação ou instauração desse pensamento.
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Todas essas definições decorrem da mesma inspiração: o homem é portador do sentido, constrói signos porque é significante em sua própria realidade e ultrapassa dialeticamente o dado.
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Valéry, inimigo declarado dos filósofos e de sua utilização da linguagem, justificou a filosofia frente à crítica que lhe dirigia, escrevendo para resolver uma nebulosa interna.
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A filosofia de Valéry é uma possibilidade do homem finito, à qual responde a necessidade de criação de um signo que se colocaria diante de tudo o que parece, impondo-lhe o valor de possível.
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A filosofia valeriana permite ao homem se compreender, se conceber e compreender todas as coisas do universo; não se trata de explicar o universo, mas de explorá-lo e transformá-lo.
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A filosofia, tal como vivida por Valéry, é a de um pensamento tornado meio e não mais fim, gerando um instrumento de pensamento e não um objetivo.
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A introspecção valeriana é a do filósofo, do dançarino da imaginação, que celebra em seus cadernos as núpcias da criação e da ciência moderna.
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Refletindo sobre a arte poética, Valéry encontrou o essencial, a ligação do conjunto com o detalhe, e levantou o problema da mobilidade e da mudança.
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O jogo do pensamento indica uma direção nova que se abre caminho entre o não pensado e o impensável, consistindo em liberar um caminho que conduz, pela meditação, além da lógica.
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A citação “O pensamento não pode ser e se desenvolver senão nos interstícios, lacunas dos sistemas, das respostas exatas” é incluída.
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A obra do homem é um aumento do mundo sensível obtido às suas próprias custas, ou melhor, o mundo sensível é uma fonte praticamente infinita de sujeitos e matéria.
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O pensamento estético de Valéry é transcendente e extrapolante em relação ao pensamento analítico e silogístico, substituindo o saber pelo poder.
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