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Estilo

SAMUEL FURLANI

  • O problema da ausência de algo a fazer ou dizer, inicialmente identificado por Wittgenstein e posteriormente incorporado por Beckett como princípio central de sua arte, manifesta-se emblematicamente na abertura de “Esperando Godot”.
    • Wittgenstein, no “Tractatus”, estabelece que a filosofia deve silenciar sobre as questões fundamentais da vida, deixando tudo como está.
    • Beckett, em correspondência, elogia a leitura de filósofos como poetas, com indiferença às formas de verificação, mencionando Schopenhauer e aproximando-se de Wittgenstein.
    • A convergência entre investigação filosófica e estética é notada por Wittgenstein, que via a filosofia como algo a ser escrito poeticamente, um princípio de condensação também defendido por Ezra Pound e adotado por Beckett.
  • A estética da contenção e da precisão, presente no “Tractatus” e em diversas manifestações artísticas da época, caracteriza-se por uma densidade que leva o pensamento ao limiar da inescrutabilidade.
    • Wittgenstein recebeu influências mais profundas de escritores na fronteira entre filosofia, religião e poesia do que de filósofos propriamente ditos.
    • O “Tractatus” é comparável a formas artísticas como o haikai imagista, o design funcionalista de Adolf Loos e os manifestos futuristas, sendo ele próprio um manifesto.
    • A enumeração, um procedimento futurista, sustenta no “Tractatus” tanto uma estrutura argumentativa quanto uma estratégia estética.
  • A admiração compartilhada por Wittgenstein e Beckett pela obra de Samuel Johnson evidencia a importância do estilo epigramático, da lexicografia e da postura de penitência abjeta como elementos constituintes de suas respectivas obras.
    • Beckett pesquisou extensivamente para uma peça sobre Johnson, cujo abandono influenciou trabalhos posteriores como “Fim de Partida”.
    • Wittgenstein, assim como Johnson, foi lexicógrafo, compilando um dicionário ortográfico e admirando a vulnerabilidade humana expressa nas “Prayers and Meditations” de Johnson.
    • A caracterização que Beckett faz de Johnson como um homem consternado e à deriva em sua solidão ecoa a percepção de Wittgenstein sobre a qualidade humana das orações de Johnson.
  • A categoria do “menos” ou “sem” assume para ambos os autores uma dimensão tanto moral quanto estilística, manifestando-se em atos de redução e poda meticulosa em suas vidas e obras.
    • Wittgenstein, em sua vida pessoal, aplicava uma rigorosa redução e realinhamento de elementos, desde o design de uma mansão até a edição de seus próprios textos filosóficos.
    • Beckett buscou um teatro reduzido aos seus próprios meios, eliminando pintura, música e adornos, e justificou a escrita em francês como uma disciplina para alcançar a concisão.
    • A tradução entre idiomas impôs a Wittgenstein e a Beckett uma disciplina de concisão, resultando em uma prosa livre de elaborações acadêmicas convencionais.
  • A austeridade e a compressão estilísticas fundamentam-se não primariamente em um princípio estético, mas em uma base ética, situando o sentido do mundo fora de seus limites factuais.
    • Wittgenstein definiu filosofia como um conjunto de proposições primitivas e insistiu que o sentido do mundo deve estar fora dele, uma ideia anotada por Beckett em seus exemplares de Engelmann.
    • A convicção de Mauthner de que, sendo o mundo regido pelo acaso, não pode haver sentido, é seguida por ambos os autores.
    • A compressão gnômica do “Tractatus” deve-se a uma omissão estudada de seu teor ético primário, que Wittgenstein considerava a parte mais importante da obra.
  • Os estilos tardios de Wittgenstein e Beckett são marcados por uma divagação não constrangida, qualificação e irresolução, utilizando formas como o diálogo e o esboço para representar o movimento puro, sem destino.
    • Beckett descreve seu ideal como “gress”, um movimento puro em contraste com o “progresso”, que implica uma meta.
    • Wittgenstein apresenta seu “Philosophical Investigations” como uma coleção de esboços de paisagem, fruto de peregrinações sem rumo.
    • A natureza dialética e não dedutiva da obra de Wittgenstein é enfatizada por comentadores, que a veem como uma mistura de afirmações, piadas, metáforas e voos imaginativos, um texto a ser testado, não crido.
  • A busca por uma “sintaxe da fraqueza” orienta a criação de formas que acolhem a aspereza e a impureza da linguagem, em oposição às demonstrações de força da filosofia sistemática tradicional.
    • Beckett afirmou procurar uma sintaxe da fraqueza, reconhecendo a forma como um obstáculo e um sinal de força.
    • Wittgenstein defendia que o que é irregular deve ser deixado como tal, buscando o atrito do “chão áspero” da linguagem em uso.
    • As escolhas formais de Wittgenstein promovem exemplos em vez de propriedades, variedade impura em vez de homogeneidade refinada, e práticas em vez de princípios.
  • A incerteza estilística no tratamento da certeza, exemplificada nas anotações de Wittgenstein sobre “On Certainty”, encontra paralelo na narrativa vacilante e autoconsciente de Beckett em “From an Abandoned Work”.
    • A tentativa de Wittgenstein de definir formas de vida não verbais e pré-racionais é marcada por autorreflexão crítica sobre sua própria expressão.
    • A narrativa de Beckett é impulsionada por uma linearidade coercitiva que ela mesma questiona, com uma consciência crítica perpetuamente alerta contra si mesma.
    • Diferentemente da autoconfiança irônica de diálogos filosóficos anteriores, a autorreflexão crítica em Wittgenstein e Beckett mina a certeza progressiva.
  • A quebra da estrutura progressiva unidirecional é realizada por Wittgenstein por meio do parágrafo tipograficamente discreto, uma forma que Beckett também adotou, criando um “contínuo descontínuo” que sugere desenvolvimento sem culminância.
    • Wittgenstein abandonou o aparato do argumento contínuo, fazendo do parágrafo isolado sua norma estilística, seguindo o precedente dos “Sudelbücher” de Lichtenberg.
    • Beckett, em “Comment c'est”, compartilha a forma notacional e cogente dos livros de Wittgenstein, com parágrafos discretos que sugerem desenvolvimento.
    • As coletâneas de textos tardios de ambos os autores combinam concentração em passagens compactas e difusão em seções amplas, resultando numa coletânea de fragmentos que forma uma miscelânea.
  • A convicção de que a literatura não é uma exceção, mas sim um exemplo privilegiado do funcionamento real da linguagem, confere ao pensamento de Wittgenstein uma qualidade literária que transcende o meramente estilístico.
    • Wittgenstein não desdenha os usos literários da linguagem como aberrantes, mas os vê como igualmente implicados nos procedimentos verbais reais.
    • A literatura, para Wittgenstein, pode exibir as regras que governam o uso da linguagem, mostrando nosso estar em casa na linguagem e a estranheza desse lar.
    • A formação de conceitos fictícios é considerada por Wittgenstein mais importante para ensinar a compreensão de nossos próprios conceitos.
  • Uma taxonomia provisória dos textos de Beckett pode ser proposta, distinguindo entre aqueles de caráter objetivo, esquemático e irrefragável (textos “Tractatus”) e aqueles subjetivos, esboçados e abertos à dúvida (textos “Investigações”).
    • Os textos “Tractatus” de Beckett, como “The Lost Ones” e “Imagination Dead Imagine”, apresentam uma representação formal e atemporal do inefável, com estilo que parodia suas próprias didascálias.
    • As direções cênicas de Beckett, como em “Quad”, assemelham-se às projeções geométricas de Wittgenstein para patentes, revelando uma esquematização espacial similar.
    • Os textos “Investigações” de Beckett, como “Murphy” e a trilogia, acumulam instâncias, negam, circulam e abortam, sendo provisórios e inseridos no tempo e nos corpos.
  • A noção de um “lugar fechado”, coextensivo à linguagem e onde tudo o que precisa ser dito para ser conhecido é dito, estabelece uma homologia entre a lógica gramatical de Wittgenstein e as liberdades da ficção de Beckett.
    • O espaço lógico em Wittgenstein e o espaço fechado nos “Fizzles” de Beckett são gramaticais, não fundamentados extrinsecamente, mas determinados por relações internas.
    • O conhecimento, nesses contextos, é estritamente “conhecimento-no-esquema”, e o texto literário prova ser exemplar das condições do conhecimento, não uma exceção.
    • Os jogos de linguagem são caracterizados por sua autossuficiência interna, onde os limites do expressável são determinados de dentro, um princípio encenado nos textos de Beckett.
  • O dizer é um fazer nos textos fechados de Beckett, onde não se pode sair das convenções linguísticas para verificá-las, uma restrição que, tanto em Wittgenstein quanto em Beckett, milita contra argumentos éticos e define o espaço lógico do mundo.
    • A impossibilidade de sair da linguagem leva a tentativas de correr contra as paredes da “gaiola”, atividade característica em “The Lost Ones”.
    • Os lugares fechados de Beckett são alegorias do anseio por exceder as barreiras que a linguagem marca, operando com uma higiene wittgensteiniana de afirmações factuais, não de valores.
    • Para além do lugar fechado da linguagem, situa-se o “místico” ou o “mistério”, cujo acesso é permanentemente negado, mas cuja noção de existência é difundida.
  • A distinção entre os textos “Tractatus” e “Investigações” de Beckett também se manifesta na qualidade de suas ambientações cênicas, onde as primeiras possuem qualidades de projeção geométrica (esparsidade, clareza, equilíbrio), enquanto as segundas são incrustadas no tempo, localidades e corpos.
    • Os cenários de Beckett para peças como “Eh Joe” e “What Where” compartilham a arquitetura severa, desornamentada e taciturna da mansão que Wittgenstein construiu para sua irmã.
    • A simplicidade austera desses espaços, tanto em Wittgenstein quanto em Beckett, arrisca causar repulsa, mas é transfigurada por harmonias de volume, proporção e matiz.
    • Em contraste, textos como “Heard in the Dark 2” apresentam uma representação minuciosa de uma propriedade e da dinâmica da melancolia, culpa e pressentimento, inserida na temporalidade da lembrança.
  • O fracasso é concebido por ambos os autores primeiramente como uma terapia e depois como um horizonte, uma admissão salutar de falibilidade e, finalmente, uma insistência na limitação inarredável, tornando-se uma credencial.
    • Beckett afirma que ser artista é falhar como ninguém ousa, pois o fracasso é seu mundo, uma fórmula que culmina no adágio popular “Falhar melhor”.
    • Wittgenstein e Beckett depositam uma fé no fracasso como meio e fim, encontrando nas possibilidades inexploradas da falha em expressar um estímulo para prosseguir.
    • A falha em viver, para os personagens de Beckett, torna-se um modo de vida, assim como a percepção da própria ignorância foi o ponto de partida para obras centrais de ambos.
  • A narração inconsequente e abortiva nos primeiros textos em francês de Beckett é a instância formal característica do fracasso, onde as histórias são paliativos que não passam o tempo e o narrador falha em silenciar.
    • Malone, em “Malone Dies”, anuncia que recomeça não mais para ter sucesso, mas para falhar.
    • O narrador de “The Unnamable” reconhece que todas as palavras são poucas e que as palavras e a voz falham.
    • A falha em impor uma ordem composicional a anotações inconclusivas, para Wittgenstein, revela a própria validade e vitalidade do “dado”, o fundamento não fundamentado da linguagem.
  • A experiência da ignorância é vivenciada como um avanço, manifestando-se em estilos que incorporam a gagueira, o balbucio e a falta de dentes como formas de eloqüência indireta e autenticidade filosófica e literária.
    • Wittgenstein compara seu filosofar a falar com uma boca desdentada, um “balbuciar” que se torna mais próprio e valioso.
    • Beckett, em seus textos, substitui a eloquência arrogante pela gagueira, e o narrador admite que as palavras lhe falham.
    • A pobreza, para Wittgenstein, é condição da filosofia, e para Beckett, condição da literatura, ambas propostas como a condição histórica adequada.
  • A indigência estilística, longe de ser um defeito, é apresentada como uma qualificação, uma pobreza sagrada que valida a expressão, onde a argumentação autodestrutiva é a única forma adequada de afirmar a validade do que se tenta dizer.
    • Wittgenstein, no prefácio das “Investigações”, chama a atenção para a “indigência” do livro, uma pobreza que qualifica a afirmação filosófica.
    • Beckett sonha com uma arte não ressentida de sua indigência insuperável e, em “Três Diálogos”, emprega uma argumentação autodestrutiva para afirmar a validade do nada a expressar.
    • O “Tractatus” é um paradigma dessa estrutura, onde o sucesso do livro reside em ser visto como um fracasso, mostrando através da tentativa falha de dizer o que não pode ser dito.
  • A fidelidade ao fracasso torna-se uma nova ocasião para o ato expressivo, que, mesmo ciente de sua impossibilidade e obrigação, pode fazer ressoar um eco do “dito errado” contra a membrana do silêncio.
    • Engelmann vê a significância decisiva do “Tractatus” em estabelecer a separação irrefutável entre a esfera superior e sua expressão problemática.
    • Beckett busca uma expressão que não seja do objeto da fala, mas da fonte da fala, uma afirmação enfraquecida de palavras que quase ressoam verdade.
    • A sintaxe da fraqueza extrema ou penúria, perseguida por Beckett, aproxima-o de Wittgenstein, permitindo uma representação do vazio que não o hipostasie, mas o aborde através do “dito errado”.
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