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Livro de todos os livros

CALASSO, Roberto. Il libro di tutti i libri

  • Novecentas e setenta e quatro gerações antes de a criação do mundo existir, a Torá já havia sido escrita — com fogo negro sobre fogo branco — e era a filha única de Yahvé, que o pai desejou ver viver em terra estrangeira.
    • Os anjos oficiantes questionaram por que ela não ficaria no céu; Yahvé respondeu: “O que isso tem a ver com vocês?”
    • Yahvé aproximou-se de um rei que tomou a filha como esposa
    • As palavras de Yahvé ao rei: “Dei-te minha única filha. Não posso me separar dela. Mas nem mesmo posso dizer-te que não a tomes, pois ela é tua esposa. Concede-me apenas isto: que onde quer que vades haja um quarto para mim”
  • Na solidão que precede a Criação, Yahvé foi assistido apenas por sua filha — a Torá, que era ao mesmo tempo a Lei e a Jojmá, a Sabedoria — que atuava como conselheira e como artífice.
    • A Sabedoria calculava medidas, selava as águas, traçava limites de areia e soldava as junções dos céus
    • Por vezes ela era o próprio plano desdobrado da Criação, e Yahvé a contemplava em silêncio
  • A Sabedoria esteve presente desde antes de os abismos existirem, antes de as águas jorrarem e antes de os céus serem suspensos e assentados, e a cada transformação permanecia ao lado de Yahvé dispondo todas as coisas.
    • A Sabedoria declarou: “Estava com ele, dispondo todas as coisas” — “cum eo eram, cuncta componens”
    • Ninguém jamais conheceria orgulho nem assombro maiores do que os dela
    • Enquanto o ciclo das maravilhas se aproximava do fim, a Sabedoria brincava no chão diante de Yahvé — um prazer ininterrupto: “delectabar per singulos dies”
    • Esse prazer transmitiu-se, enfraquecido e adulterado, aos filhos dos homens
  • A Torá foi uma das sete coisas criadas antes de o mundo existir, ao lado da Expiação, do Éden, da Geena, do trono da majestade, do Templo e do nome do Messias.
    • O Éden — um jardim — e a Geena — um vale — flutuavam num lugar anterior ao espaço; sua presença era indispensável, mas permanecia incompreensível como e onde poderiam estar antes de o mundo existir
    • À Torá era indiferente a existência ou não do mundo — ela repousava no colo do pai e cantava com os anjos oficiantes
    • Após centenas de gerações, alguns anjos, olhando para baixo, viram um homem escalar um monte com grande esforço e sentiram uma pontada de nostalgia que antecipava a perda
    • Os anjos disseram ao Pai: “Por que queres entregar essa joia bem guardada a um ser de carne e osso?” — mas já era tarde demais
  • O fato de a Torá ter sido escrita com fogo negro sobre fogo branco permitia, segundo Najmânides, cabalista de Gerona, que ela fosse lida de duas formas antitéticas — como escrita contínua sem divisão em palavras, ou do modo tradicional composto de preceitos e relatos.
    • Na leitura contínua — exigida pela natureza do fogo — preceitos e relatos se dissolvem e a escrita torna-se uma sequência de nomes
    • Outros cabalistas de Gerona foram mais longe: a Torá inteira deveria ser lida como um único nome — o Nome do Santo
    • Azriel apressou-se a afirmar que a descendência de Esaú, enumerada em Gênesis 36 e geralmente tida como passagem supérflua, não era fundamentalmente distinta do Decálogo — ambos eram partes individuais de um mesmo edifício, igualmente indispensáveis
  • A Sabedoria saiu da boca do Pai em forma de nuvem, havia erguido sua tenda nos céus antes da criação do mundo e chegava até o Pai pela coluna de nuvem onde estava seu trono.
    • A Sabedoria declarou: “Como uma nuvem cobri a terra”
    • Tenda e coluna de nuvem reapareceriam quando Moisés se retirou à “Tenda do Encontro” e uma coluna de nuvem cobriu a entrada — forma pela qual Yahvé quis falar com Moisés “face a face, como fala um homem com seu vizinho”
    • A Sabedoria, porém, transitava do interior da tenda ao interior da coluna de nuvem — primeiro passo de uma viagem incessante por todos os recantos do cosmos
    • A Sabedoria percorreu o círculo do céu sozinha, caminhou pelas profundidades dos abismos, pelas ondas do mar e por toda a terra, enriquecendo-se em cada povo e em cada nação — encontrando por toda parte substância de que se alimentar, mas pensando sempre em sua tenda
    • Um dia o Pai fez-lhe um sinal, e a Sabedoria concluiu seu relato: “E assim me estabeleci em Sião”
    • Nessa mesma terra, um dia, o Filho — seu irmão — não encontraria “onde reclinar a cabeça”
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