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Leveza
CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia Digital, 2013.
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A primeira conferência é dedicada à oposição entre leveza e peso, defendendo-se as razões da leveza, não por julgar menos válidas as razões do peso, mas por se ter mais a dizer sobre a leveza.
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Após quarenta anos escrevendo ficção, explorando diversos caminhos e experiências, busca-se uma definição global do trabalho.
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A definição proposta é que a própria operação consistiu, na maioria das vezes, em subtrair peso, tanto de corpos celestes e cidades, quanto da estrutura da narrativa e da linguagem.
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Tenta-se explicar por que se chegou a considerar a leveza como um valor e não como um defeito, quais exemplos do passado representam esse ideal de leveza, e como situar esse valor no presente e projetá-lo no futuro.
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Ao iniciar a atividade de escritor, o dever de representar o próprio tempo era um imperativo categórico, mas logo se percebeu um fosso entre os fatos da vida e a agilidade que se queria para a escrita, descobrindo tardiamente o pesadume, a inércia e a opacidade do mundo.
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O mundo parecia estar se transformando inteiramente em pedra, uma lenta petrificação que não poupava nenhum aspecto da vida.
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O único herói capaz de cortar a cabeça da Medusa é Perseu, que voa com suas sandálias aladas e não olha diretamente para o rosto da Górgona, mas apenas para sua imagem refletida no escudo de bronze.
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Perseu vem em socorro sempre que se tenta uma evocação histórico-autobiográfica.
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Para cortar a cabeça de Medusa sem se deixar petrificar, Perseu apoia-se no que há de mais leve (os ventos e as nuvens) e dirige o olhar para o que só pode ser revelado em uma visão indireta, por um espelho.
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Sente-se a tentação de encontrar no mito uma alegoria da relação do poeta com o mundo, mas sabe-se que qualquer interpretação empobrece o mito, sendo melhor deixar que ele se deposite na memória e meditar sobre cada detalhe em sua própria linguagem de imagens.
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A relação entre Perseu e a Górgona é complexa e não se encerra com a decapitação do monstro, pois do sangue de Medusa nasce Pégaso, o cavalo alado, e a leveza pode nascer da pedra.
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Pégaso, com um casco no monte Hélicon, faz jorrar a fonte onde as Musas se abreviam.
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Em algumas versões, é Perseu quem monta Pégaso, nascido do sangue maldito de Medusa.
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As sandálias aladas também provinham do mundo dos monstros, recebidas das irmãs de Medusa, as Greias de olho único.
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Perseu não abandona a cabeça cortada, mas a carrega consigo em um saco, usando-a como arma invencível em casos extremos contra aqueles que merecem se tornar a estátua de si mesmos.
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Perseu domina o rosto terrível mantendo-o escondido, assim como o venceu ao olhá-lo no espelho, residindo sua força no recusa da visão direta, mas não na recusa da realidade do mundo dos monstros que ele carrega como seu próprio fardo.
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Nas Metamorfoses de Ovídio, aprende-se mais sobre a relação entre Perseu e Medusa, especialmente quando, após libertar Andrômeda, Perseu se preocupa em onde pousar a cabeça de Medusa.
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Ovídio oferece versos que explicam toda a delicadeza de alma necessária para ser um vencedor de monstros: “E, para que a dureza da areia não machuque a cabeça cercada de serpentes (anguiferumque caput dura ne laedat harena), / Ele torna o solo mais macio com folhagens, cobre com algas / Marinhas e ali deposita, em frente, a cabeça de Medusa.”
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A leveza de que Perseu é o herói é representada por esse gesto de refrescante gentileza para com um ser monstruoso e terrível, mas também, de certa forma, degradável e frágil.
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O milagre que se segue é a transformação das algas marinhas em corais, e as ninfas correm para se adornar com coral, aproximando ramos e algas da terrível cabeça.
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Aproxima-se desses versos de Ovídio o texto de um poeta moderno, Pequeno testamento, de Eugenio Montale, onde elementos extremamente delicados (“traccia madreperlacea di lumaca / o smeriglio di vetro calpestato” [traço nacarado de lesma / ou esmeril de vidro pisoteado]) são confrontados com um monstro infernal, um Lúcifer de asas de betume.
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Em Montale, o que está em primeiro plano são as mínimas marcas luminosas opostas à obscura catástrofe: “Conservane la cipria nello specchietto / quando spenta ogni lampada / la sardana si farà infernale…” [Conserve o pó de arroz no espelhinho / quando apagada toda lâmpada / a sardana se fará infernal…].
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O poema de Montale é uma profissão de fé na persistência do que parece mais destinado a perecer e nos valores morais investidos nos traços mais tênues: “il tenue bagliore strofinato / laggiù non era quello d’un fiammifero” (o tênue clarão esfregado / lá embaixo não era o de um fósforo).
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Para falar da própria época, foi necessário um longo desvio, evocando a frágil Medusa de Ovídio e o Lúcifer betuminoso de Montale, pois é difícil para um romancista representar sua ideia de leveza com casos da vida contemporânea sem torná-la objeto de uma busca sem fim.
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Milan Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser, fez isso de maneira evidente, com uma amarga constatação da Inelutável Pesanteza do Viver, não apenas da opressão em seu país, mas de uma condição humana comum.
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O peso do viver para Kundera reside em toda forma de restrição, e seu romance mostra como tudo o que é escolhido como leve não tarda a revelar seu peso insustentável.
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Talvez apenas a vivacidade e a mobilidade da inteligência possam escapar a essa condenação, qualidades que pertencem a um universo diferente do do viver.
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Quando o reino humano parece condenado à pesanteza, pensa-se em voar como Perseu para outro espaço, não por fugas no sonho ou no irracional, mas mudando de abordagem, olhando o mundo segundo outra ótica, outra lógica e outros meios de conhecimento e controle.
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No universo infinito da literatura, abrem-se sempre outros caminhos a explorar, estilos e formas que podem mudar a imagem do mundo.
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Quando a literatura não basta para garantir que não se está apenas perseguindo sonhos, busca-se na ciência o que possa nutrir visões onde toda pesanteza se esvanece.
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Todas as ciências parecem demonstrar que o mundo repousa sobre entidades extremamente sutis, como as mensagens do DNA, os impulsos dos neurônios e os neutrinos.
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A informática também é citada: o software (software) não poderia exercer os poderes de sua leveza sem a pesanteza do hardware (hardware), mas é o software que comanda e age sobre o mundo exterior.
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A segunda revolução industrial não se acompanha de imagens esmagadoras, mas apresenta-se como um fluxo de informação sob forma de impulsos eletrônicos, com as máquinas de ferro obedecendo a bits desprovidos de peso.
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Extrapolar das ciências uma imagem do mundo que corresponda aos próprios desejos pode renovar um fio muito antigo da história da poesia, como se vê em Lucrécio.
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O De rerum natura, de Lucrécio, é a primeira grande obra de poesia onde o conhecimento do mundo se torna dissolução da compacidade do mundo, percepção do que é infinitamente miúdo e leve.
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Lucrécio escreve o poema da matéria, mas a verdadeira realidade dessa matéria é feita de corpúsculos invisíveis, e ele diz que o vazio é tão concreto quanto os corpos sólidos.
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A preocupação de Lucrécio parece ser evitar que o peso da matéria esmague, permitindo aos átomos desvios imprevisíveis em relação à linha reta para garantir a liberdade à matéria e aos seres humanos.
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A poesia do invisível e do vazio nasce de um poeta que não tem dúvidas sobre a natureza física do mundo.
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A pulverização da realidade se estende aos aspectos visíveis, nos grãos de poeira que rodopiam num raio de sol, nos pequenos moluscos que a onda empurra suavemente sobre a “bibula harena” (areia que se embebe), e nas teias de aranha que envolvem sem que se perceba.
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As Metamorfoses, de Ovídio, outro poema enciclopédico, parte não da realidade física, mas das fábulas mitológicas, onde tudo pode se transformar em novas formas e a compacidade do mundo também se dissolve.
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Para Ovídio, há uma igualdade essencial entre todas as coisas que existem, contra toda hierarquia de poderes e valores.
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O mundo de Ovídio é feito de qualidades, atributos e formas que definem a diferença de cada coisa, mas que são apenas envoltórios tênues de uma substância comum que pode se transformar.
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Seguindo a continuidade da passagem de uma forma a outra, Ovídio desdobra seus dons inigualáveis, como a mulher que se transforma em azevinheiro, com os pés pregados ao solo e as mãos cheias de folhas, ou os dedos de Aracne que se alongam em finas patas aracnídeas e tecem teias de aranha.
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Tanto em Lucrécio quanto em Ovídio, a leveza é uma maneira de ver o mundo fundada na filosofia e na ciência (as doutrinas de Epicuro e de Pitágoras), mas é algo que se cria na escrita, com os meios linguísticos do poeta.
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O conceito de leveza começa a se precisar, mostrando que existe uma leveza do pensativo (pensosità), ao lado da leveza da frivolidade, e que a leveza pensativa pode fazer parecer pesada e opaca a frivolidade.
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Ilustra-se essa ideia com uma novela do Decamerão (VI, 9) sobre o poeta florentino Guido Cavalcanti, apresentado como um austero filósofo que medita entre sepulcros de mármore.
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A juventude dourada florentina, que cavalgava em bandos, decide importunar Cavalcanti, que recusava fazer farra com eles e era suspeito de impiedade.
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Cercado por eles, Cavalcanti responde: “Senhores, na vossa casa podeis me dizer o que quiserdes”, e, colocando a mão sobre uma daquelas arcas, “como era levíssimo, de um salto se lançou do outro lado, e, tendo-se livrado deles, se foi embora.”
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O que impressiona é a imagem visual: Cavalcanti se libertando com um salto, “como era levíssimo”.
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Se fosse escolher um símbolo inaugural para o limiar do novo milênio, seria a agilidade do salto súbito do poeta-filósofo que se projeta sobre a pesanteza do mundo, provando que sua gravidade esconde o segredo da leveza.
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O que muitos tomam pela vitalidade dos tempos (barulhenta, agressiva, trôpega e estrepitosa) pertence ao reino da morte, como um cemitério de automóveis enferrujados.
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Cavalcanti é poeta da leveza, e em seus poemas as “dramatis personae” são suspiros, raios de luz, imagens ópticas e, sobretudo, impulsos ou mensagens imateriais chamadas “espíritos”.
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Essas entidades se movem entre alma sensitiva e alma intelectiva, entre coração e espírito, entre olhos e voz, distinguindo-se por serem extremamente leves, estar em movimento e ser um vetor de informação.
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Em algumas composições, a mensagem-mensageiro é o próprio texto poético: “Va' tu, leggera e piana, / dritt'a la donna mia” (Vai tu, leve e plana, / direto à minha dama).
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Em outra, os instrumentos da escrita falam: “Noi siàn le triste penne isbigottite, / le cesoiuzze e 'l coltellin dolente…” (Nós somos as tristes penas espavoridas, / as tesourinhas e o canivete dolente…).
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Cavalcanti dissolve a dor de amor em entidades impalpáveis, e um mestre da crítica estilística italiana, Gianfranco Contini, chamou isso de “igualação cavalcantiana dos reais”.
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No soneto “Biltà di donna…” (Beauté de dame…), a enumeração inclui “e bianca neve scender senza venti” (e branca neve cair sem ventos).
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Dante retomou o verso quase idêntico no Inferno (XIV, 30) “come di neve in alpe sanza vento” (como de neve nas alturas sem vento), mas com diferença fundamental: em Dante, a conjunção “como” encerra a cena no quadro de uma metáfora concreta e dramática; em Cavalcanti, a conjunção “e” coloca a neve no mesmo plano que as outras visões, numa cascata de imagens abstratas.
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Em Dante, tudo adquire consistência e estabilidade, e até a leveza tem seu peso exato; em Cavalcanti, a coisa toda se move tão rápido que não se percebe sua consistência, apenas seus efeitos.
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Duas vocações disputam o campo da literatura através dos séculos: uma tende a fazer da linguagem um elemento desprovido de peso, flutuando acima das coisas; a outra tende a comunicar à linguagem o peso, a espessura e a concretude das coisas, dos corpos, das sensações.
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Nas origens da literatura italiana e europeia, essas duas vias são abertas por Cavalcanti e Dante.
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Dante, na Vita nuova e na Comédia, também expressa a leveza como ninguém, mas seu gênio também se manifesta em extrair da língua todas as possibilidades sonoras e emotivas, dando solidez corporal até à especulação intelectual mais abstrata.
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A leveza associa-se à precisão e à determinação, não ao vago e ao abandono ao acaso, como disse Paul Valéry: “É preciso ser leve como o pássaro e não como a pluma.”
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A leveza é ilustrada por Cavalcanti em pelo menos três acepções diferentes: 1) um aligeiramento da linguagem. 2) A narrativa de um raciocínio ou processo psicológico com elementos sutis e imperceptíveis, ou qualquer descrição com alto grau de abstração (exemplo de Henry James em A Fera na Selva). 3) Uma imagem figural de leveza com valor emblemática, como o salto de Cavalcanti.
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A cena em que Dom Quixote transpassa a asa de um moinho de vento com sua lança e é arrebatado pelos ares é um dos momentos mais célebres da literatura de todos os tempos.
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Em Shakespeare, busca-se exemplos de leveza em Mercutio, que contradita Romeu (“Under love's heavy burden do I sink” [Sob o pesado fardo do amor eu me afundo]) com um discurso sobre a Rainha Mab.
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A Rainha Mab aparece em um carro feito de “an empty hazel-nut” (uma casca de avelã vazia) com raios de longas patas de aranhas, capota de asa de gafanhoto, rédeas de fina teia de aranha, chicote de osso de grilo e puxado por “a team of little atomies” (uma parelha de pequenos átomos).
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A Renascença shakespeariana conhece as influências etéreas que conectam macrocosmo e microcosmo, e as mitologias celticas são ricas na imagética das forças mais sutis da natureza com seus elfos e fadas.
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A gravidade sem peso de Cavalcanti reaparece em Shakespeare na conexão particular entre melancolia e humor, estudada por Klibansky, Panofsky e Saxl em Saturno e a Melancolia.
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A melancolia é a tristeza tornada leve, e o humor é o cômico que perdeu sua pesanteza corporal, colocando em dúvida o eu, o mundo e toda a rede de relações.
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Melancolia e humor misturados caracterizam o tom do príncipe da Dinamarca e seus avatares, como Jacques em As You Like It: “but it is a melancholy of mine own… which, by often rumination, wraps me in a most humorous sadness” (mas é uma melancolia minha… que, pela frequente ruminação, me envolve em uma tristeza muito humorística).
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O primeiro escritor do mundo moderno que faz profissão de uma concepção atomista do universo em sua transfiguração fantástica é Cyrano de Bergerac, discípulo do sensualismo de Gassendi e da astronomia de Copérnico, e nutrido da filosofia natural da Renascença italiana (Cardano, Bruno, Campanella).
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Cyrano é o primeiro poeta do atomismo nas literaturas modernas, celebrando a unidade de todas as coisas, a combinatória de figuras elementares que determina a variedade das formas vivas, e o sentimento da precariedade dos processos que as criaram.
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No Viagem na Lua, Cyrano escreve: “Vocês se admiram como esta matéria, misturada ao acaso, pode ter constituído um homem… mas vocês não sabem que cem milhões de vezes esta matéria… se deteve formando ora uma pedra, ora chumbo, ora coral, ora uma flor, ora um cometa…”
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Nessa lógica, Cyrano proclama a fraternidade dos homens e dos repolhos, com a protesto de um repolho prestes a ser cortado: “Homem, meu caro irmão, que te fiz eu que mereça a morte?”
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Cyrano figura na conferência sobre a leveza principalmente pela forma como sentiu, antes de Newton, o problema da gravitação universal e de se subtrair à força da gravidade, inventando sistemas para se erguer até a lua: frascos de orvalho que evaporam ao sol, medula de boi que a lua costuma aspirar, e uma bola imantada lançada várias vezes na vertical.
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Swift descreve as laterais da ilha cercadas de galerias e escadas: “In the lowest Gallery, I beheld some People fishing with long Angling Rods, and others looking on.” (Na galeria mais baixa, vi algumas pessoas pescando com longas varas de pesca, e outras olhando.)
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Voltaire, admirador de Newton, imagina um gigante, Micromégas, definido por dimensões expressas em números, que viaja no espaço de Sirius a Saturno e à Terra.
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No século XVIII, a imaginação é rica de figuras suspensas nos ares, com os tapetes e cavalos voadores das Mil e Uma Noites (traduzidas por Antoine Galland) e o barão de Münchhausen voando numa bala de canhão, imagem imortalizada por Gustave Doré.
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Münchhausen desafia a lei da gravitação: é levado pelos ares por patos, ergue-se a si mesmo e ao cavalo puxando a trança da peruca, e volta da lua segurando uma corda que corta e reconecta várias vezes.
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Aos quinze anos, Giacomo Leopardi escreve uma história da astronomia onde resume as teorias newtonianas, e sua contemplação do céu noturno inspira seus versos mais belos, com imagens de leveza do bonito inatingível: os pássaros, uma voz feminina que canta numa janela, a transparência do ar, e sobretudo a lua.
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O milagre de Leopardi foi ter tirado da linguagem todo o seu peso até torná-la semelhante à luz lunar.
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Cita-se a “Canto notturno di un pastore errante dell'Asia”: “Dolce e chiara è la notte e senza vento, / E queta sovra i tetti e in mezzo agli orti / Posa la luna, e di lontan rivela / Serena ogni montagna.” (Doce e clara é a noite e sem vento, / E calma sobre os tetos e em meio aos pomares / Pousa a lua, e ao longe revela / Serena cada montanha.)
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“O graziosa luna, io mi rammento / che, or volge l'anno, sovra questo colle / io venia pien d'angoscia a rimirarti…” (Ó graciosa lua, eu me lembro / que, há um ano, sobre esta colina / eu vinha cheio de angústia a te admirar…)
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“O cara luna, al cui tranquillo raggio / danzan le lepri nelle selve…” (Ó cara lua, sob teu tranquilo raio / dançam as lebres nos bosques…)
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“Già tutta l'aria imbruna, / torna azzurro il sereno, e tornan l'ombre / giù da' colli e da' tetti, / al biancheggiar della recente luna.” (Já todo o ar escurece, / torna azul o sereno, e voltam as sombras / das colinas e dos tetos, / ao branquejar da lua recente.)
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“Che fai tu, luna, in ciel? dimmi, che fai, / silenziosa luna? / Sorgi la sera, e vai, / contemplando i deserti; indi ti posi.” (Que fazes tu, lua, no céu? dize-me, que fazes, / silenciosa lua? / Surges à tarde, e vais, / contemplando os desertos; depois te pousas.)
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Os fios do discurso se entrelaçam: a lua, Leopardi, Newton, a gravitação e a levitação; Lucrécio, o atomismo, a filosofia do amor de Cavalcanti, a magia da Renascença, Cyrano; e a escrita como metáfora da substância pulverulenta do mundo.
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Para Lucrécio, as letras já eram átomos em movimento contínuo, ideia retomada por pensadores como Raimundo Lúlio, a Cabala, Pic de la Mirandola, Galileu e Leibniz.
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Não se seguirá esse caminho da escrita como modelo de todo processo da realidade, pois foge do uso da palavra como perseguição perpétua das coisas e adaptação à sua infinita variedade.
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Resta o fio da literatura como função existencial, a busca da leveza como reação ao peso de viver, estendendo-se à antropologia, etnologia e mitologia.
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O xamã, diante da precariedade da existência da tribo, anulava o peso de seu corpo, transportando-se em voo para outro mundo, a outro nível de percepção, para encontrar forças que modificassem a realidade.
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Nas aldeias, as bruxas voavam à noite sobre cabos de vassouras ou veículos ainda mais leves, como espigas ou palhas.
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Acredita-se que esse vínculo entre desejo de levitação e sofrimento da privação é uma constante antropológica que a literatura perpetua.
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Na literatura oral, nos contos, o voo para outro mundo é uma situação frequente, sendo um dos modos de “transferência do herói” segundo Vladimir Propp, que enumera exemplos de “O herói voa pelos ares”: a cavalo, sobre um pássaro, num barco voador, num tapete voador, etc.
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Encerra-se evocando um texto de Kafka, O Cavaleiro do Balde (Der Kübelreiter), um curto relato de 1917 sobre a falta de carvão num inverno de guerra.
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O narrador sai com um balde vazio em busca de carvão para seu fogão, e o balde lhe serve de montaria, erguendo-o até o nível dos primeiros andares.
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O cavaleiro do balde fica muito alto para ser ouvido pelo carvoeiro, cuja esposa o enxota como uma mosca.
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O balde, tão leve, foge voando com seu cavaleiro, para se perder para além das Montanhas de Gelo.
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A ideia do balde vazio que ergue acima do nível onde se encontram a ajuda e o egoísmo alheio, signo de privação, desejo e busca, que eleva ao ponto onde a mais humilde das preces não será mais atendida, abre reflexões sem fim.
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O herói do relato de Kafka não parece dotado de poderes xamânicos ou de feitiçaria, e o reino para além das Montanhas de Gelo não parece ser aquele onde o balde vazio encontrará seu conteúdo, pois se estivesse cheio, não permitiria voar.
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A cavalo sobre o balde vazio, apresenta-se ao limiar do novo milênio, sem esperança de encontrar ali nada mais do que aquilo que se for capaz de trazer, como a leveza cujas virtudes esta conferência tentou ilustrar.
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