Fragilidade
CARRIÈRE, Jean-Claude. Fragilité. Paris: Odile Jacob, 2006.
Escolhi uma palavra, “fragilidade”, e segui-a. Segui-a até onde ela quisesse me levar. Para mim, ela foi como uma bengala de cego, ou como uma chave, uma daquelas chaves-mestras que permitem entrar em todos os quartos de um hotel.
Descobri aos poucos que essa palavra – e o que ela abrange – permite, de fato, penetrar, como que por arrombamento, em vários territórios do nosso comportamento, em nossos recantos e, às vezes, até mesmo em nossos porões. Apliquei-a ao poder, à história, ao nosso planeta ameaçado, às nossas religiões, às nossas bandeiras, à velha luta entre o saber e a ignorância, ao terrorismo contemporâneo, a tudo o que passou diante dos meus olhos.
Ao longo do caminho, encontrei alguns grandes antepassados que trilharam o caminho antes de mim, Shakespeare e Dostoiévski, é claro, bem como os autores desconhecidos do Mahâbhârata indiano, mas também alguns de nossa terra, Corneille, Chateaubriand, Balzac, Proust.
Graças ao meu trabalho, ao longo da minha vida, mantive relações estreitas com a maioria deles. Relê-los sob um certo ângulo, à luz de uma palavra, é hoje uma fonte de espanto, de inquietação e, por vezes, também de consolo. Eles me ensinaram, o que eu sem dúvida já sabia, que uma personagem só pode nos tocar, e tocar os outros, quando encontramos nela essa “essência de vidro” de que fala Shakespeare e que chamamos de “vulnerabilidade”. Assim, nossa fragilidade, longe de ser uma simples e irremediável fraqueza, torna-se, por ser comum a todos nós, o motor de toda expressão, de toda emoção e, muitas vezes, de toda beleza.
Aqui e ali, para quebrar a monotonia da leitura, contei alguns pequenos momentos da minha vida em que essa fragilidade assumiu um sabor particular. Esses breves momentos, aos quais cada um pode acrescentar os seus, não passam de esboços preparatórios para o imenso afresco que todos nós sonhamos em escrever, ou pintar, e com o qual devemos nos contentar em viver.
