Vale do Nada
CARRIÈRE, Jean-Claude. La Vallée du Néant. Paris: Odile Jacob, 2018.
Caminhamos até o lugar onde não há nada.
Até o vale do Nada.
Mas, atenção: até mesmo o Nada tem um segredo.
Farid ad-Din Attar, A Conferência dos Pássaros.
Uma antiga anedota japonesa, muito simples, conta o seguinte:
Dois caminhantes avançam a pé por uma montanha, por um caminho estreito e, em alguns trechos, perigoso. Digamos que estejam fazendo uma excursão.
De repente, deparam-se com um torrente revolto e barulhento, que lhes parece intransponível.
Param à beira do torrente, sem fôlego, sem saber o que fazer, procuram em vão por uma ponte ou uma passarela, quando avistam um homem já idoso, bem ali perto, que entra na água turbulenta. O homem se move lentamente, sem qualquer dificuldade; vai e vem nos remoinhos, nos redemoinhos; passa por baixo de uma cachoeira; bebe com a palma da mão; recolhe um pouco de musgo; enche uma bacia; agarra um peixe em uma cavidade na rocha; sobe e desce na água muito agitada, como se todos esses movimentos não lhe exigissem nenhum esforço.
Muito surpresos, os dois viajantes, que recuperam o fôlego, observam-no por um momento; então, um deles o chama e pergunta, elevando a voz:
– Mas como você consegue ir e vir assim, nessas águas turbulentas e rugidoras?
– Como? pergunta o homem, colocando a mão em volta da orelha.
O passeante aproxima-se do torrente e repete a pergunta. Como é que aquele homem idoso consegue, com aparente facilidade, deslocar-se na corrente desenfreada que desce da montanha?
É a vez do velho parecer surpreso. Ele diz finalmente, com palavras muito simples:
– Mas eu não sei. Sempre morei aqui, conheço esse riacho desde a minha infância, vou e venho, não tenho nenhum problema. Por quê?
