3. Eumeu
CAMPBELL, Joseph. Mythic worlds, modern words: on the art of James Joyce. Edited by Edmund L. Epstein. Novato: Joseph Campbell Foundation: New World Library, 2003
III. Os Capítulos de Telêmaco, Odisseu e Penélope: Eumeu
O capítulo “Eumeu” (escrito em um estilo propositalmente impreciso e cansado, como o de estudantes escrevendo redações tarde da noite) mostra Stephen e Bloom no abrigo de cocheiros (cabman’s shelter), um local noturno povoado por “restos” da sociedade (velhos marinheiros, bêbados, desabrigados), onde os dois têm uma conversa franca e pela primeira vez Stephen não está na defensiva.
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Stephen olha para uma foto de Molly (“a large sized lady with her fleshy charms on evidence”) que Bloom lhe mostra, e Bloom comenta que ela é “Mrs Bloom, my wife the prima donna Madam Marion Tweedy”, uma “Spanish type” (tipo espanhol).
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Bloom reflete sobre a situação de Stephen: “a thousand pities a young fellow, blessed with an allowance of brains… should waste his valuable time with profligate women”, e planeja Utopian plans para o futuro: Stephen poderia ensinar italiano a Molly, fazer duetos com ela, e eles poderiam viver juntos em harmonia.
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Bloom convida Stephen para sua casa para tomar um cacau (“Do you like cocoa?”), e Stephen aceita; os dois saem do abrigo caminhando juntos, e Stephen começa a cantar.
Itaca
O capítulo “Itaca” é escrito em formato de perguntas e respostas (catecismo) em linguagem científica e precisa, e descreve a chegada de Bloom e Stephen à casa de Bloom (7 Eccles Street), sua conversa mansa, a recusa de Stephen em passar a noite, sua partida, e finalmente Bloom subindo para o quarto e encontrando a cama desarrumada com os sinais da presença de Blazes Boylan.
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Bloom entra em sua própria casa pela adega (escalando o gradil) porque esqueceu a chave no bolso das calças do dia anterior (“It was in the corresponding pocket of the trousers which he had worn on the day but one preceding”).
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Stephen recusa o convite para pernoitar (“inexplicably” recusa, na linguagem do capítulo), e os dois saem no quintal para urinar juntos (um eco do tema do cachorro do capítulo Proteu), após o que Stephen desaparece na noite (“Stephen vanishes and that’s the end of him”).
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Bloom sobe sozinho para o quarto e bate a cabeça (“bumps his head”) porque Molly mudou os móveis de lugar (“the female is energy, she is mover, she is change”).
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Na cama, Bloom encontra “the presence of a human form, female, hers, the imprint of a human form, male, not his, some crumbs, some flakes of potted meat”, confirmando o adultério de Molly com Boylan.
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Bloom reflete sobre a longa série de amantes de Molly (“Assuming Mulvey to be the first term of his series… Hugh E. (Blazes) Boylan and so each and so on to no last term”), e experimenta sentimentos de inveja (envy), ciúme (jealousy), abnegação (abnegation) e equanimidade (equanimity).
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A abnegação é justificada por uma longa lista de fatores (incluindo “extraracial attraction” e “intraracial inhibition”), e ele conclui que o adultério é “not so calamitous as a cataclysmic annihilation of the planet”, “less reprehensible than theft, highway robbery, cruelty to children”, e “more than inevitable, irreparable”.
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No teto do quarto, a luz de um abajur projeta “an inconstant series of concentric circles of varying gradations of light and shadow”, que é a versão terrena (imperfeita) da Visão Beatífica de Dante (os três círculos de luz no Paraíso).
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Bloom se deita na cama ao lado de Molly (ambos em movimento com a rotação da Terra, “carried westward by the proper perpetual motion of the earth”), e a última pergunta do capítulo (“Where?”) é respondida com “Going to dark bed… Darkinbad the Brightdayler”, indicando que Bloom mergulhou na noite do ventre de Molly.
Penélope
O capítulo “Penélope” é o solilóquio de Molly Bloom (oito longos parágrafos sem pontuação), que começa com “Yes because he never did a thing like that before” e termina com um “Yes” repetido, afirmando a vida, o sexo e a natureza, e lembrando o dia em que aceitou a proposta de casamento de Bloom no Howth Head (“the day I got him to propose to me yes… he said I was a flower of the mountain”).
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Molly recorda seus amantes (incluindo Boylan, “Mulvey” de Gibraltar, e outros), mas sua memória mais vívida é do momento em que deu a Bloom um pedaço de seedcake (“first I gave him the bit of seedcake out of my mouth”) em Howth, há 16 anos (um ano bissexto, como 1904).
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A paisagem de Gibraltar (com “the sea the sea crimson sometimes like fire”, “the figtrees in the Alameda gardens”, “the pink and blue and yellow houses”) se funde com a paisagem de Dublin (os rododendros de Howth), e todas as experiências se misturam em uma única grande afirmação (“it all melts into one big big dominant experience”).
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Molly pensa em Stephen (“he’s a gentleman… his lovely linen”), compara-o favoravelmente a Boylan, e imagina que ele poderia ficar com eles (“wouldn’t it be nice if Stephen came to stay with them”).
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O “Yes” final (que aparece cerca de vinte vezes nas últimas páginas) é lido como a afirmação incondicional da vida (“the affirmation of life is what Joyce represents”), mesmo diante do sofrimento e do adultério.
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A passagem do “Yes” para “Finnegans Wake” é descrita como uma passagem do “reino dos objetos grosseiros” (waking consciousness) para o “reino da matéria sutil” (dream consciousness), onde sujeito e objeto se fundem (“I as dreamer am surprised by my dream, yet the dream is I”).
