Sementes
NOVALIS. Semences. Olivier Schefer. Paris: Éd. Allia, 2004.
FRAGMENTOS E TOTALIDADE
Sinfilosofia, sinpoesia
1. A morte de Sophie von Kühn e do irmão Erasmo inaugura a carreira poético-filosófica de Novalis sob o signo de uma ferida irremediável, pois o amor por Sophie visava nela a totalidade, a filosofia e o paraíso, contrapondo ao projeto fichtiano de uma Doutrina da Ciência um eros platônico renovado pela subjetividade cristã moderna, no qual o romantismo se afirma como consciência trágica da alteridade e reconhece o outro como parte essencial do sujeito.
2. Para além da intensa solidariedade fraterna da família Hardenberg, o primeiro romantismo alemão inventa uma família intelectual de substituição em torno da revista Athenäum, cujo programa revolucionário de unir poesia e filosofia, artista e crítico, Antiguidade e modernidade se realiza na prática de sinfilosofar e sinpoetizar, escrita a várias mãos que, longe de significar harmonia perfeita, exacerba divergências e tensões, mas converte a comunicação e o intercâmbio em questões filosóficas e estéticas de pleno direito e inaugura o regime moderno da criação coletiva.
Comunidade e obra de arte total
1. A comunidade romântica dos amigos, ao mesmo tempo sonho e realidade, encarna a unidade sintética dos opostos que, por meio de formas favoráveis à circulação das ideias e de uma concepção do gênio como potência universal, una e plural, de todo homem, prefigura a utopia estético-política da obra de arte total e de uma escrita coletiva de nações inteiras, utopia jamais cumprida, pois a prática do fragmento deliberado revela uma totalidade concebida como caos de possíveis e mistura incessante de saberes, avessa ao sistema único, ao mito heideggeriano da pureza do Ser e ao fechamento da arte sobre si mesma.
A obra fragmentária
1. Longe de ser mero estilo apaixonado, simples nota de leitura, aforismo autônomo ou desconstrução do todo, a escrita fragmentária de Novalis responde à própria ambição romântica de totalidade, já que, situados no abismo kantiano entre natureza e liberdade, os românticos fazem do fragmento, como no sistema de fragmentos de Friedrich Schlegel, o melhor modo de pensar a plenitude de um caos sobre o qual nenhum ponto de vista absoluto pode impor autoridade.
2. Crise e mutilação, o fragmento constitui também a última esperança romântica, pois o resto se torna totalidade quando é um indivíduo orgânico, como mostram o pé vivo da tela caótica de Frenhofer em Balzac, o fragmento-ouriço de Schlegel, a serpente com que Baudelaire compara seus pequenos poemas em prosa e as mãos esculpidas por Rodin evocadas por Rilke.
3. Em contraste com a beleza aristotélica do belo animal comedido e ordenado, o fragmento moderno se constitui como sentido orgânico simultâneo do minúsculo e do colossal, de modo que toda produção atual aparece como parte de uma obra futura e os românticos aspiram, ao mesmo tempo, a obras microcósmicas e a uma arte ilimitada, semelhante ao romance colossal da vida em que se vive em grande e em pequeno.
