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Eco, Umberto

Umberto Eco (1932-2016)

Palestra proferida no Festival de Literatura de Mântua, em setembro de 2000.

A lenda segundo a qual Stálin teria perguntado quantas divisões o Papa possuía é desmentida pelos fatos: existem forças imateriais que não se medem, mas que têm peso — entre elas a tradição literária, rede de textos produzidos pela humanidade para seu próprio deleite e não para fins práticos.

  • A potência das raízes quadradas, com suas leis rígidas que sobreviveram tanto aos decretos de Stálin quanto ao próprio Papa, ilustra esse tipo de força intangível.
  • Os textos literários chegaram à humanidade pela voz oral, pela pedra, pelo papel e hoje pelo livro eletrônico — suporte que não altera a potência de Dom Quixote.

A literatura mantém a língua viva como patrimônio coletivo, pois a língua segue seu próprio caminho, impermeável a decretos políticos ou acadêmicos.

  • Os fascistas italianos tentaram impor mescita no lugar de bar, coda di gallo no lugar de cocktail, rete no lugar de goal, e a língua não obedeceu.
  • Sem Dante e seu “vernáculo ilustre” forjado no De Vulgari Eloquentia, não teria existido língua italiana unificada — e talvez a ideia de unidade política tampouco tivesse avançado.
  • Vinte anos de retórica fascista não deixaram traço no italiano contemporâneo, enquanto certos experimentos futuristas, inaceitáveis à época, sim.
  • O “italiano médio” difundido pela televisão tem precedente nobre na prosa de Manzoni e, depois, de Svevo e Moravia.
  • Sem Homero não haveria civilização grega, sem a tradução da Bíblia por Lutero não haveria identidade alemã, sem Púchkin não haveria língua russa, sem os épicos fundadores não haveria civilização indiana.

A literatura mantém viva também a língua individual, e os jovens que frequentam as grandes livrarias contemporâneas entram em contato com estilos elaborados aos quais seus pais e avós jamais foram expostos.

  • Os que praticam o “telegrafês” dos SMS e e-mails são em parte os mesmos que folheiam livros nessas novas catedrais da leitura.
  • Os que matam por ociosidade não foram corrompidos pela linguagem digital — foram excluídos do universo da literatura e dos lugares onde um lampejo de valores poderia alcançá-los.

A leitura de obras literárias impõe um exercício de fidelidade e respeito ao texto, ainda que dentro de certa liberdade de interpretação.

  • A heresia crítica segundo a qual se pode fazer qualquer coisa com uma obra literária é falsa: a liberdade interpretativa deve ser guiada pelo respeito à intenção do texto.
  • Certas proposições sobre personagens literários — “Anna Kariênina se suicida”, “Sherlock Holmes era solteiro” — são eternamente verdadeiras e irrefutáveis, ao contrário das leis científicas, sempre revisáveis.
  • Ninguém que afirme que Hamlet casou com Ofélia ou que Superman não é Clark Kent merece o mesmo respeito reservado a opiniões teológicas divergentes.

O texto literário sinaliza com autoridade suprema o que deve ser tomado como relevante e o que não deve servir de ponto de partida para interpretações sem freio.

  • Em O Vermelho e o Negro, de Stendhal, a mão trêmula de Julien Sorel e o primeiro tiro que erra o alvo permitem duas interpretações — intenção homicida covarde ou impulso passional vago —, mas o destino da bala perdida é irrelevante porque o texto o exclui da especulação.
  • Em Armance, também de Stendhal, o não dito sobre a impotência do protagonista convida o leitor a completar o que a história não explicita.
  • Em Os Noivos, de Manzoni, a frase “a infeliz respondeu” não detalha os pecados de Gertrude com Egídio, mas a penumbra de hipóteses que evoca faz parte da fascinação da passagem.
  • Em Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, o fato de D'Artagnan ter chegado a Meung numa segunda-feira 7 de abril de 1625 é curiosidade inútil para a interpretação — ao contrário da estação do ano, que justifica o capote escarlate de Porthos escondendo a bandoleira bordada apenas na frente.

O universo da literatura oferece um modelo, ainda que fictício, de verdade — e protege contra interpretações delirantes.

  • Afirmar que D'Artagnan era movido por paixão homossexual por Porthos, que o Inominado de Manzoni agia por complexo de Édipo ou que Panurge odiava o capitalismo nascente são leituras que nenhum texto autoriza.
  • O mundo literário é um universo em que é possível estabelecer se um leitor tem senso de realidade ou é vítima de suas próprias alucinações.

Os personagens literários migram: existem como fatos registrados num texto — partitura imutável — e Anna Kariênina se suicida no mesmo sentido em que a Quinta Sinfonia de Beethoven está em dó menor.

  • Ulisses, Jasão, Rei Artur, Parsifal, Alice, Pinóquio, D'Artagnan migraram de texto em texto e de mídia em mídia — do oral ao livro, do livro ao cinema ou ao balé.
  • Chapeuzinho Vermelho existe em versões profundamente diferentes: na de Perrault a menina é devorada e a história termina aí; na dos irmãos Grimm o caçador mata o lobo e a salva.
  • As crianças conhecem a “história verdadeira” em que Chapeuzinho ressuscita — versão mais próxima dos Grimm, porém mais esquemática e flutuante do que qualquer partitura específica.
  • Madame Bovary, Édipo, Werther são indivíduos com vida própria além de suas partituras originais, sobre os quais qualquer pessoa pode fazer afirmações verdadeiras — inclusive quem nunca leu o texto original.

Esses personagens existem como habitus cultural, disposição social, e moldaram o comportamento humano a ponto de se tornarem padrões de referência coletiva.

  • Dizer que alguém tem complexo de Édipo, apetite gargantuesco, age quixoticamente, é ciumento como Otelo, duvida como Hamlet, é um Dom Juan incurável ou um Scrooge pressupõe a realidade ontológica desses personagens.
  • O mesmo vale para situações e objetos: a sebe de Leopardi, as águas claras e frescas de Petrarca, o jantar bestial de Dante, o punhado de pó de Eliot tornaram-se metáforas obsessivas que dizem quem somos e para onde vamos.
  • A diferença entre a fantasia privada sobre a morte de um ente querido e o suicídio de Werther é que esta segunda é um fato público sobre o qual toda a comunidade de leitores concorda — tanto que justificamos de algum modo quem se mata por causa de Werther, sabendo que este é personagem fictício.

A era do hipertexto eletrônico permite reescrever narrativas existentes ad infinitum, mudando o destino dos personagens — prática que tem precedentes em Mallarmé, nos surrealistas, em Queneau e nas jam sessions do jazz.

  • Programas disponíveis na internet permitem escrever histórias em grupo e alterar os desfechos das grandes narrativas: fazer o príncipe Andrei viver, reconciliar Emma Bovary com Charles, enviar Chapeuzinho Vermelho ao encontro de Pinóquio.
  • Tal exercício pode ser educativo — como transcrever Chopin para bandolim ajuda a entender por que o timbre do piano era parte integral da Sonata op. 35 — mas não substitui a função educativa da literatura.

A função essencial da literatura reside na lição sobre o destino e a morte: as histórias “já feitas” ensinam que as coisas acontecem de um modo particular, independentemente do que o leitor deseja.

  • Lotman, retomando o conselho de Tchékhov sobre a espingarda pendurada na parede, observa que o verdadeiro ensinamento não é saber se ela disparará, mas aceitar que não somos nós que decidimos — e sentir, através dessa frustração, o poder do Destino.
  • A grandeza trágica das páginas de Hugo sobre Waterloo em Os Miseráveis reside precisamente no fato de que as coisas aconteceram como aconteceram, apesar de tudo: se Napoleão soubesse do declive atrás do planalto de Mont-Saint-Jean, a cavalaria de Milhaud não teria perecido; se o pastorzinho tivesse indicado outro caminho, o exército prussiano de Blücher não teria chegado a tempo.
  • A beleza de Guerra e Paz está na morte de Andrei, por mais que ela nos entristece; o espanto doloroso das grandes tragédias vem do fato de que seus heróis, podendo escapar, mergulham num abismo que muitas vezes cavaram com as próprias mãos.
  • Hugo resume: “Era possível a Napoleão vencer aquela batalha? Respondemos que não. Por quê? Por causa de Wellington? Por causa de Blücher? Não. Por causa de Deus.”
  • A narrativa hipertextual ensina muito sobre liberdade e criatividade — mas as histórias imutáveis ensinam a morrer.
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